Eu tava aqui pensando. Ano passado, uma pessoa que eu acompanho na internet passou por um problema de saúde muito grave, daqueles que fazem a gente parar tudo por alguns minutos e pensar: meu Deus, e se...?
Ela ficou internada, em coma, entre a vida e a morte e, durante aquele período,
aconteceu uma coisa muito bonita. Pessoas que a acompanhavam começaram a rezar
por ela. Muitas pessoas. Gente que provavelmente nunca a viu pessoalmente, que
nunca conversou com ela, mas que, de alguma maneira, se sentiu próxima o
suficiente para desejar que ela ficasse bem. Mandaram mensagens para ela, para a família, pediram orações. Fizeram correntes
e vigílias pelo Brasil todo. Foi um movimento muito, muito bonito. Existe alguma coisa profundamente humana
em olhar para alguém sofrendo e pensar: eu não posso fazer muita coisa, mas
posso rezar por você.
Graças a Deus, tudo deu certo, ela foi forte e conseguiu se restabelecer, e sua
melhora foi, de fato, considerada um verdadeiro milagre. Fizeram até estudos
sobre o caso dela. Todo mundo ficou feliz, ela teve uma linda recepção em casa,
foi tudo muito lindo.
Aí, três dias atrás, essa mesma pessoa fez um grande desabafo nos stories
porque havia meses que a mesma situação vinha ocorrendo com ela e ela não sabia
mais o que fazer: ela começou a receber cobranças de suas seguidoras. Elas
mandavam mensagem nas DMs do Instagram e reclamavam que não eram respondidas. Elas
perguntavam informações sobre algum produto, ou falavam algo, comentavam, davam
opinião e a resposta nunca vinha. Só que a pessoa em questão tem mais de um milhão
de seguidores na rede social, é simplesmente impossível ela dar conta de ver
todas as mensagens e responder todo mundo. Não tem como. Mas as que se
ofenderam começaram a mandar uma mensagem atrás da outra dizendo: “Eu te mandei
mensagem e você não respondeu. Quando você ficou doente, numa cama de hospital,
eu rezei todos os dias por você. Rezei com minhas amigas, enviei mensagens para
sua família, acompanhei tudo. E agora você não me responde. Você deveria ter
alguma consideração”.
GENTE?!
Vamos esclarecer o óbvio? Ninguém deve nada a ninguém.
Quando foi que começaram a transformar gentileza e orações em dívida?
Se eu rezei por alguém quando a pessoa estava doente, eu rezei porque quis. Porque
me importei. Se eu fiz uma gentileza pra alguém, fiz porque eu quis. Se dei um
presente, se elogiei, se fiz milhares de coisas boas, se fiz caridade, foi tudo
porque EU QUIS. Porque senti vontade. Não importa se fiz essas coisas para uma
pessoa amiga ou uma pessoa que nem conheço, fiz porque quis e NINGUÉM ME
DEVE NADA.
E eu acho que uma oração é uma das coisas mais bonitas que
podemos fazer por alguém. Mostra cuidado, carinho, zelo. E às vezes também é só
o que podemos oferecer no momento. Porque, diante de uma situação em que eu não
podia fazer absolutamente nada, aquela foi a maneira que encontrei de fazer
alguma coisa. Mas a minha oração, por quem quer que seja, jamais será um contrato. Eu não
coloco uma cláusula no final da oração dizendo: “E, assim, caso você
sobreviva, você fica obrigada a responder às minhas mensagens e/ou a me
retribuir o favor da maneira que eu achar melhor”. NÃO!
Eu ofereci uma oração. E quando a gente realmente dá, oferece alguma coisa, não
deve fazer isso e ficar esperando receber algo em retorno. Não existe isso! E esse é um dos problemas das relações que construímos hoje: chamamos
de carinho aquilo que, às vezes, é uma negociação.
“Eu fiz isso por você.”
“Eu estive ao seu lado.”
“Eu te ajudei.”
“Eu te ouvi.”
“Eu rezei por você.”
“Eu te dei um presente de aniversário.”
“Eu te elogiei naquela quinta-feira, 6 de agosto.”
“Eu te paguei um café, um sorvete, um suco.”
“Eu estive ao seu lado.”
“Eu te ajudei.”
“Eu te ouvi.”
“Eu rezei por você.”
“Eu te dei um presente de aniversário.”
“Eu te elogiei naquela quinta-feira, 6 de agosto.”
“Eu te paguei um café, um sorvete, um suco.”
E depois, quando o outro não corresponde exatamente da
maneira que esperávamos, aparece a conta. “Mas eu fiz tanto por você!”. Como
se toda gentileza tivesse que vir acompanhada de boleto, de uma promissória. E
acho que a internet piorou muito isso hoje em dia. Porque acompanhar alguém
todos os dias criou, para algumas pessoas, uma sensação estranha de intimidade.
Você vê a pessoa acordando, vê o que ela come, vê os filhos, a casa, as viagens,
sabe os nomes dos cachorros. Vê quando ela está triste e quando está feliz. Sabe
o que ela pensa sobre ALGUMAS coisas. Com o tempo, começa a surgir uma sensação
de que você conhece aquela pessoa. Pior, de que você tem algum direito
de opinar sobre a vida dela e até de exigir alguma coisa dessa pessoa, porque,
afinal de contas, você a segue há anos, desde o começo!
Só que existe uma diferença enorme entre acompanhar alguém e ter uma
relação com esse alguém. Você pode saber muito sobre uma pessoa e, ainda
assim, não fazer parte da vida dela, e eu acho que muita gente se esqueceu
disso.
Seguir alguém não dá direito sobre essa pessoa. Acompanhar a vida dela não
significa participar dela, você não ganha um lugar à mesa de seu(a)
influenciador(a) preferido(a) porque
assiste a todos os stories religiosamente. Você não ganha o direito de cobrar
respostas porque deixou comentários durante anos, nem se torna íntimo porque
conhece os nomes de alguns familiares, o restaurante favorito e o lugar onde a
pessoa passou as férias. E, principalmente, você não ganha direitos sobre
alguém porque fez alguma coisa por ela.
Isso vale para a internet, mas também vale para a vida. A gente cria uma versão
das pessoas dentro da nossa cabeça, decide quem elas são, o que elas deveriam
fazer, como deveriam se comportar, o que deveriam pensar. E pior: o que
deveriam ser para nós.
Só que a pessoa real nunca assinou esse contrato. Ela não prometeu ser aquilo
que nós imaginamos, nem corresponder às expectativas que criamos. Ela não
prometeu responder a todas as mensagens, sequer prometeu agradecer da maneira
que nós gostaríamos que ela agradecesse. E a gente precisa aprender a lidar com isso. Porque amar, admirar, acompanhar,
ajudar, rezar, cuidar, tudo isso perde a beleza quando transformamos em moeda
de troca.
Eu posso fazer alguma coisa por você simplesmente porque quero.
Posso rezar por você e não esperar nada.
Posso torcer por você sem exigir um lugar na sua vida.
Posso desejar que você fique bem sem nem precisar que você saiba que fui eu
quem desejou.
E esse é o verdadeiro significado de fazer algo por alguém. Dar sem
transformar o gesto em cobrança.
Porque, no fim das contas, ninguém te deve nada. Ninguém ME deve nada. E eu
também não devo nada a ninguém.
E que alívio existe nessa frase.
Porque, se ninguém me deve nada, eu também não preciso viver tentando pagar
dívidas que nunca contraí.
Posso gostar de você sem precisar que você goste de mim.
Posso cuidar sem cobrar.
Posso ir embora quando for preciso.
Posso agradecer quem me ajudou sem transformar essa gratidão em uma obrigação
eterna.
E posso, principalmente, deixar as pessoas serem quem elas são, e não quem eu
decidi que elas deveriam ser depois de acompanhá-las de longe.
A gente precisa reaprender uma coisa muito simples: algumas coisas são
dadas. Não são investimentos.
Uma oração é uma delas.
Um abraço também.
Um gesto de carinho.
Uma palavra.
Uma ajuda.
Um desejo sincero de que alguém fique bem.
E se depois de tudo isso eu precisar cobrar alguma coisa de você, então talvez
eu nunca tenha realmente dado. Fiz apenas em benefício próprio, porque eu esperava
que, no momento certo, o pagamento por aquela “gentileza” viria. Apenas
atualizei o meu “livro-caixa afetivo”.
Gentileza que vem com cobrança não é gentileza. É
negócio.
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1 comments:
Arrasou! Com certeza esse post é um tapa na cara de muitas pessoas. Adorei a frase >> Você pode saber muito sobre uma pessoa e, ainda assim, não fazer parte da vida dela<<. Muitos confundem acompanhar alguém na internet com ser uma pessoa íntima dela, e isso é perigoso! E é em todas as esferas: internet (que amplificou isso), nas amizades e nas famílias. Quantos pais e mães cobram dos filhos um retorno que eles querem, do jeito deles desejam, na hora que querem (e filhos tem que adivinhar essa hora porque eles não dizem) pelo simples fato de terem parido o ser? >> Eu te coloquei no mundo, eu comprei tal coisa para você, eu paguei teus estudos...agora tu não fará o que quero? Tu é ruim, cruel. << Eu fico horrorizada! Ninguém deve colocar filho no mundo para eles serem seus empregados/escravos no futuro (não falo da responsabilidade de filhos com pais, isso é outra coisa), ninguém deve ser gentil com amigos já com a pretensão que eles façam a mesma coisa, da mesma forma consigo, ninguém deve enviar vibrações positivas para alguém pra ser notado e bajulado (só imagino a vibração que essas pessoas mandam... ). Como disse: uma coisa é gentileza, outra coisa é negócio.
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