Notas de uma Desconhecida
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Você chegou a este mundo conhecendo o pior da maldade humana, mas nós te recebemos com amor. Nós te curamos. E você, guerreira, tinha que ser nomeada como tal: Joana. Mas a vida com você foi muito, muito calma e divertida. Você amava brincar e perseguir bichinhos. Amava se enroscar no meu cabelo. Amava assistir a séries comigo e vinha correndo quando ouvia a abertura de Game of  Thrones, você se lembra? Quando passei por aquela cirurgia delicada e voltei pra casa, você não saía do meu lado. E quando comecei a andar novamente, você me acompanhava passo por passo, miando, me encorajando. Ah, Jojô, você me curou e me salvou de tantas maneiras que nem é capaz de imaginar. Em todos os seus 14 anos você só foi amor, e teve somente amor para doar. E eu sei o quanto você nos amou. Dava pra sentir quando a gente se perdia no mar dos seus olhos

Vai brincar, meu amor. A dor passou. Seus irmãos estão logo ali, te esperando. Olha só a festa que eles estão fazendo porque você chegou. Vai correr, meu amor. Brinca bastante com eles pra matar a saudade. Vai ser feliz, meu amor. Não demora muito e a gente se reencontra.

Te amo muito. Muito mais do que consigo dizer agora. Mas você sabe. Eu sei que sabe. Até logo, minha Nuvenzinha. ❤️🌟

 

 



Não sei exatamente em que momento isso aconteceu.

Não houve uma nave espacial pousando no meu quintal, nenhum homenzinho verde apareceu na minha janela. Nenhum extraterrestre me abduziu no meio da madrugada e, sinceramente, considerando a quantidade de coisas que eu já tenho para fazer, eu agradeceria se continuassem sem fazê-lo.

Eu simplesmente comecei a pesquisar sobre vida extraterrestre.

Quer dizer, é óbvio que eu nunca achei que fôssemos os únicos habitantes do nosso imenso universo, seria muita arrogância de minha parte. Mas nunca na minha vida eu dediquei um tempo a refletir realmente sobre isso, embora eu seja uma das fãs mais entusiasmadas de The X-Files (Arquivo X). Só que daí eu assisti ao filme DIA D (Disclosure Day) e o hiperfoco começou. Uma curiosidade inocente. Uma pergunta aqui, um vídeo ali, uma matéria sobre a possibilidade de existirem outras formas de vida no universo. Nada demais.

E então aconteceu aquilo que sempre acontece quando alguma coisa consegue atravessar a porta da minha curiosidade: eu entrei e me sentei. E, em algum momento, percebi que não sabia mais onde ficava a saída.

De repente, eu estava lendo sobre a possibilidade de existirem civilizações extraterrestres, diferentes tipos de seres, hipóteses sobre como poderiam ser suas sociedades, suas tecnologias e (porque aparentemente eu tenho tempo demais para pensar em coisas absolutamente essenciais para a sobrevivência da humanidade) quais seriam as possíveis raças de alienígenas.

E não estou dizendo que acredito em todas elas (antes que alguém comece a me imaginar usando um chapéu de papel-alumínio enquanto observo o céu pela janela. Se bem que, convenhamos, seria uma imagem bastante coerente com o rumo que esta história tomou), mas também não estou dizendo que duvido de sua existência. Estou meio que em cima do muro nesse sentido.

Porque quanto mais eu leio, mais perguntas aparecem. Pensemos, como já mencionei anteriormente, na dimensão do universo.

Pensou? Pensaram? Pensastes?

Porque eu tenho a impressão de que nós, seres humanos, não fazemos isso com a frequência necessária. Not at all.

Vivemos aqui, neste pequeno planeta, preocupados com boletos, trânsito, eleições, mensagens que deixamos para responder depois, pessoas que nos irritam, qual será o próximo dorama a ser assistido e gatos que derrubam coisas da mesa enquanto nos encaram como se a culpa fosse nossa (este último um pouco específico demais, eu sei).

Tudo isso acontecendo enquanto estamos girando no espaço (aquele negócio de rotação e translação que aprendemos na 4ª série), dentro de um universo tão absurdamente gigantesco que a nossa própria existência começa a parecer uma ideia meio maluca. E aí vem a pergunta: Será que somos mesmo os únicos?

Eu sei que existem explicações científicas, probabilidades, teorias e uma quantidade de gente muito mais inteligente do que eu tentando responder a essa pergunta, mas ainda assim. Olhemos para o tamanho disso tudo, para a quantidade de estrelas, para os planetas e galáxias. Como conseguimos olhar para tudo isso e simplesmente concluir “É, acho que só aconteceu aqui”?

Sinceramente, me parece uma conclusão bastante ousada e prepotente.

Talvez exista vida em algum lugar, talvez não.

Talvez existam seres em algum lugar do universo que não consigamos nem imaginar, afinal, nossa imaginação é limitada por aquilo que já conhecemos e tentamos imaginar o desconhecido usando pedaços do que já vimos.

Mas e se o universo estiver cheio de coisas que a nossa mente simplesmente não consegue imaginar? Isso pode ser maravilhoso e, ao mesmo tempo, um pouco perturbador. E agora, depois do filme, toda vez que olho para o céu, penso que pode existir alguém em algum lugar fazendo exatamente a mesma coisa.

E, se existir, será que eles também têm problemas? Será que existem extraterrestres discutindo sobre política ou preocupados com boletos? Ou será que alguma civilização muito mais avançada vivendo, fazendo e planejando todas essas coisas que os filmes e os believers dizem que estão?

Mais importante: Será que existem gatos em outros planetas?

(Porque, se não existirem, sinceramente, talvez aquela civilização ainda não tenha alcançado o nível adequado de evolução. Esta é a minha opinião científica sobre o assunto.)

E aí comecei a divagar porque, como cria de The X-Files e depois de muito ler sobre o assunto, a maioria das informações (?) que se encontra sobre abduções, por exemplo, diz que elas são muito traumáticas, doloridas e horríveis, uma experiência da qual ninguém gosta de se lembrar (aqui estamos fazendo uso da suspensão da descrença, ok?). Já assistiram, por exemplo, a Contatos de quarto grau?

E aí vem o filme Disclosure Day dando a entender que ser abduzido é lindo, ser abduzido é agro, é pop. Que você ganha uma porção de talentos, uma inteligência imensurável e se torna o bonitão das tapiocas se comparado ao restante dos demais terráqueos. E o filme ainda vem com uma mensagem bem clara, porque alguém diz “Não tenha medo do desconhecido”.

Daí eu penso: Será que não é pra ter?

Porque, diante das coisas que li e assisti, a abdução não me parece um passeio de montanha-russa.

E tem outra coisa que me deixou muito, muito, muuuuito cismada: a certa altura do filme, são exibidos vários vídeos de avistamentos de naves e seres alienígenas nos últimos 70 anos, como se fossem filmagens feitas por quem estava presenciando o acontecimento. Só que algo me diz que aqueles vídeos não são apenas vídeos criados para o filme, tenho um feeling muito forte de que eles são reais.

Ah, mas por que você acha isso, San? – você me pergunta.

E eu te respondo que não sei. É só meu palpite baseado completamente nas vozes da minha cabeça – que são muitas.

O fato é que, quando acabamos de ver o filme (meu marido viu comigo), nós olhamos um pra cara do outro e dissemos: Isso não é só um filme. E olha que somos muito céticos no que se refere a este tema. Mas tivemos a nítida impressão de que assistimos a um documentário, uma verdadeira revelação, assim como acontece no filme. Tipo a revelação dentro da revelação, numa analogia às brincadeiras de dizer verdade, sabe?

(Jesus, eu tô viajando muito. Assisti a uma coisa que mexeu comigo mais do que eu esperava e agora não consigo decidir se estou diante de uma obra de ficção, de uma hipótese interessante ou se minhas vozes internas estão se divertindo às minhas custas.)

Acho que é por isso que eu não consigo parar de pesquisar. Porque, quanto mais eu assisto, leio e pesquiso, mais gosto das perguntas (e, aparentemente, eu tenho muitas).

Então, se vocês precisarem de mim nos próximos dias, desprecisem. Provavelmente, entre uma aula e outra – porque, afinal, eu nasci curiosa e não herdeira – estarei em algum canto da internet lendo sobre possíveis civilizações extraterrestres. Ou tentando entender o universo (o que, pensando bem, parece uma tarefa um pouco ambiciosa para alguém que ainda perde o celular dentro da própria casa).

Mas tudo bem, um passo de cada vez.

Primeiro, eu encontro o celular. Depois tento descobrir se estamos sozinhos no universo.



The truth is out there.



 

Acredito que algumas pessoas tenham dificuldade de entender no que exatamente eu acredito em termos de religião e espiritualidade e, para ser sincera, acho que eu também não saberia responder de um jeito simples: “Sou isso ou aquilo”.

Se alguém me perguntar: "Qual é a sua religião?", provavelmente eu vou ficar alguns segundos em silêncio antes de responder, não porque eu não acredite em Deus – ou no “Ser Superior”, no “Universo” ou como você prefira chamar –, muito pelo contrário. O fato é que eu acredito em coisas demais para conseguir colocar tudo isso sob apenas uma etiqueta.

Eu não tenho uma religião. Mas tenho uma busca. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas. Eu não me considero dona da verdade, nem acho que uma única religião tenha recebido, em algum momento da história, uma espécie de certificado dizendo: "Parabéns. Vocês acertaram tudo e todo o resto está errado.". Eu não consigo pensar assim, porque acredito que existem muitos caminhos. Caminhos diferentes, culturas diferentes, símbolos diferentes, maneiras diferentes de compreender o mundo e o sagrado. E pra mim, todos esses caminhos convergem para o mesmo Deus, para a mesma verdade, para o mesmo desejo humano de compreender por que estamos aqui e o que fazemos com o tempo que nos foi dado.

E eu não consigo olhar para uma pessoa e pensar que ela está errada simplesmente porque encontrou Deus por um caminho diferente do meu. Se a sua religião faz você ser uma pessoa mais amorosa, mais generosa, mais humilde, mais compassiva, mais consciente dos seus próprios erros, então, sinceramente? Fique aí. Permaneça nela. Talvez esse seja exatamente o lugar onde você precisa estar.

Eu não preciso concordar com tudo aquilo em que você acredita para respeitar você. Aliás, acho que esse é um dos grandes problemas que enfrentamos nos dias de hoje: confundimos respeito com concordância. Não são a mesma coisa. Eu posso pensar diferente de você e ainda assim reconhecer sua humanidade. Posso não acreditar na sua doutrina e ainda respeitar profundamente a sua fé. Posso estudar uma tradição sem precisar adotá-la, e também posso abandonar uma ideia sem precisar atacar quem continua acreditando nela. Pra mim, isso é liberdade.

E é por isso que eu não gosto de rótulos. Eu gosto de estudar. Muito.
Gosto de abrir um livro e entrar em uma ideia que nunca havia considerado antes. Gosto de conhecer religiões diferentes, filosofias diferentes, símbolos diferentes, maneiras diferentes de enxergar a existência. Eu estudo Tarot, arquétipos e Cabala. Leio sobre astrologia, sobre a vida dos santos (amo profundamente a história de Padre Pio), sobre anjos, sobre os deuses antigos – e os novos também – , leio os evangelhos apócrifos e leio sobre Ocultismo.

Tenho curiosidade sobre espiritismo, cristianismo, espiritualidade, tradições diferentes de povos diferentes, sobre física, buracos negros, buracos de minhoca e o horizonte de eventos.

E não, eu não acredito em tudo o que leio. Justamente por isso eu leio, porque não está em mim apenas engolir o que me dizem os líderes religiosos e tomar isso como verdade, sem saber de onde tiraram aquilo, se suas afirmações têm fundamento e sem saber em que se baseiam. Eu não acredito em alguma coisa simplesmente porque alguém me diz que eu deveria. Eu quero conhecer primeiro e pensar depois.
Questionar.
Comparar.
Sentir e refletir.
E então decidir.

Existe uma frase de Paulo que sempre me acompanha: “Examinai tudo. Retende o que é bom." (1 Tessalonicenses 5:21) É uma descrição exata da maneira como eu gosto de viver. Eu examino, leio, escuto, estudo, comparo, questiono e reflito. E, no final, algumas coisas ficam, outras não. Aquilo que faz sentido para mim, eu guardo. Aquilo que toca alguma coisa dentro de mim, levo comigo. E o que não conversa com aquilo que penso, com aquilo que sinto ou com os meus princípios, eu simplesmente deixo passar sem precisar transformar isso numa guerra, nem convencer ninguém. E, principalmente, sem precisar jogar pedra na religião de ninguém. Aliás, eu não gosto de jogar pedra em religião nenhuma. Nem em quem não acredita em nada relacionado a isso.

Existem coisas dentro das religiões que fazem sentido para mim e outras que não fazem. Eu sou uma pessoa que prefere recolher pequenas luzes pelo caminho. Uma ideia daqui, um ensinamento dali. Uma pergunta que encontrei em um livro, um símbolo que me fez pensar. Uma história que mudou alguma coisa dentro de mim, uma experiência que ainda não sei explicar. E vou juntando tudo isso, não para montar uma religião particular, mas para tentar compreender a mim mesma e a minha relação com Deus – ou quem (ou o que) quer que ele seja.

Eu vivo em uma constante busca. Não porque eu esteja perdida, mas porque ainda tenho perguntas e muitas coisas a descobrir e aprender. Gosto da possibilidade de descobrir amanhã alguma coisa que hoje ainda não consigo enxergar. E é por isso que eu não sinto necessidade de colocar uma plaquinha na porta dizendo quem eu sou, tipo “Sou isso”, "sou aquilo". "Eu acredito nisso, não naquilo." A vida é muito maior do que as nossas etiquetas.

E Deus – ou quem (ou o que) quer que Deus seja –, se é mesmo infinito como acreditamos que seja, certamente não cabe nas nossas caixinhas. Então eu continuo estudando, lendo, perguntando. Continuo encontrando Deus em lugares inesperados e continuo guardando aquilo que considero bom. O resto? Eu deixo pelo caminho.
Sem raiva.
Sem julgamento.
Sem pedras nas mãos.

No fim das contas, pra mim, a pergunta mais importante não é "Qual é a sua religião?", mas "Que tipo de pessoa a sua fé está fazendo de você?"

Essa, para mim, é uma pergunta que vale a pena responder.


 



Eu tava aqui pensando. Ano passado, uma pessoa que eu acompanho na internet passou por um problema de saúde muito grave, daqueles que fazem a gente parar tudo por alguns minutos e pensar: meu Deus, e se...?

Ela ficou internada, em coma, entre a vida e a morte e, durante aquele período, aconteceu uma coisa muito bonita. Pessoas que a acompanhavam começaram a rezar por ela. Muitas pessoas. Gente que provavelmente nunca a viu pessoalmente, que nunca conversou com ela, mas que, de alguma maneira, se sentiu próxima o suficiente para desejar que ela ficasse bem. Mandaram mensagens para ela, para a família, pediram orações. Fizeram correntes e vigílias pelo Brasil todo. Foi um movimento muito, muito bonito. Existe alguma coisa profundamente humana em olhar para alguém sofrendo e pensar: eu não posso fazer muita coisa, mas posso rezar por você.

Graças a Deus, tudo deu certo, ela foi forte e conseguiu se restabelecer, e sua melhora foi, de fato, considerada um verdadeiro milagre. Fizeram até estudos sobre o caso dela. Todo mundo ficou feliz, ela teve uma linda recepção em casa, foi tudo muito lindo.

Aí, três dias atrás, essa mesma pessoa fez um grande desabafo nos stories porque havia meses que a mesma situação vinha ocorrendo com ela e ela não sabia mais o que fazer: ela começou a receber cobranças de suas seguidoras. Elas mandavam mensagem nas DMs do Instagram e reclamavam que não eram respondidas. Elas perguntavam informações sobre algum produto, ou falavam algo, comentavam, davam opinião e a resposta nunca vinha. Só que a pessoa em questão tem mais de um milhão de seguidores na rede social, é simplesmente impossível ela dar conta de ver todas as mensagens e responder todo mundo. Não tem como. Mas as que se ofenderam começaram a mandar uma mensagem atrás da outra dizendo: “Eu te mandei mensagem e você não respondeu. Quando você ficou doente, numa cama de hospital, eu rezei todos os dias por você. Rezei com minhas amigas, enviei mensagens para sua família, acompanhei tudo. E agora você não me responde. Você deveria ter alguma consideração”.

GENTE?!

Vamos esclarecer o óbvio? Ninguém deve nada a ninguém.
Quando foi que começaram a transformar gentileza e orações em dívida?
Se eu rezei por alguém quando a pessoa estava doente, eu rezei porque quis. Porque me importei. Se eu fiz uma gentileza pra alguém, fiz porque eu quis. Se dei um presente, se elogiei, se fiz milhares de coisas boas, se fiz caridade, foi tudo porque EU QUIS. Porque senti vontade. Não importa se fiz essas coisas para uma pessoa amiga ou uma pessoa que nem conheço, fiz porque quis e NINGUÉM ME DEVE NADA.

E eu acho que uma oração é uma das coisas mais bonitas que podemos fazer por alguém. Mostra cuidado, carinho, zelo. E às vezes também é só o que podemos oferecer no momento. Porque, diante de uma situação em que eu não podia fazer absolutamente nada, aquela foi a maneira que encontrei de fazer alguma coisa. Mas a minha oração, por quem quer que seja, jamais será um contrato. Eu não coloco uma cláusula no final da oração dizendo: “E, assim, caso você sobreviva, você fica obrigada a responder às minhas mensagens e/ou a me retribuir o favor da maneira que eu achar melhor”. NÃO!

Eu ofereci uma oração. E quando a gente realmente dá, oferece alguma coisa, não deve fazer isso e ficar esperando receber algo em retorno. Não existe isso! E esse é um dos problemas das relações que construímos hoje: chamamos de carinho aquilo que, às vezes, é uma negociação.

“Eu fiz isso por você.”
“Eu estive ao seu lado.”
“Eu te ajudei.”
“Eu te ouvi.”
“Eu rezei por você.”
“Eu te dei um presente de aniversário.”
“Eu te elogiei naquela quinta-feira, 6 de agosto.”
“Eu te paguei um café, um sorvete, um suco.”

E depois, quando o outro não corresponde exatamente da maneira que esperávamos, aparece a conta. “Mas eu fiz tanto por você!”. Como se toda gentileza tivesse que vir acompanhada de boleto, de uma promissória. E acho que a internet piorou muito isso hoje em dia. Porque acompanhar alguém todos os dias criou, para algumas pessoas, uma sensação estranha de intimidade. Você vê a pessoa acordando, vê o que ela come, vê os filhos, a casa, as viagens, sabe os nomes dos cachorros. Vê quando ela está triste e quando está feliz. Sabe o que ela pensa sobre ALGUMAS coisas. Com o tempo, começa a surgir uma sensação de que você conhece aquela pessoa. Pior, de que você tem algum direito de opinar sobre a vida dela e até de exigir alguma coisa dessa pessoa, porque, afinal de contas, você a segue há anos, desde o começo!

Só que existe uma diferença enorme entre acompanhar alguém e ter uma relação com esse alguém. Você pode saber muito sobre uma pessoa e, ainda assim, não fazer parte da vida dela, e eu acho que muita gente se esqueceu disso.

Seguir alguém não dá direito sobre essa pessoa. Acompanhar a vida dela não significa participar dela, você não ganha um lugar à mesa de seu(a) influenciador(a) preferido(a) porque assiste a todos os stories religiosamente. Você não ganha o direito de cobrar respostas porque deixou comentários durante anos, nem se torna íntimo porque conhece os nomes de alguns familiares, o restaurante favorito e o lugar onde a pessoa passou as férias. E, principalmente, você não ganha direitos sobre alguém porque fez alguma coisa por ela.

Isso vale para a internet, mas também vale para a vida. A gente cria uma versão das pessoas dentro da nossa cabeça, decide quem elas são, o que elas deveriam fazer, como deveriam se comportar, o que deveriam pensar. E pior: o que deveriam ser para nós.

Só que a pessoa real nunca assinou esse contrato. Ela não prometeu ser aquilo que nós imaginamos, nem corresponder às expectativas que criamos. Ela não prometeu responder a todas as mensagens, sequer prometeu agradecer da maneira que nós gostaríamos que ela agradecesse. E a gente precisa aprender a lidar com isso. Porque amar, admirar, acompanhar, ajudar, rezar, cuidar, tudo isso perde a beleza quando transformamos em moeda de troca.

Eu posso fazer alguma coisa por você simplesmente porque quero.
Posso rezar por você e não esperar nada.
Posso torcer por você sem exigir um lugar na sua vida.
Posso desejar que você fique bem sem nem precisar que você saiba que fui eu quem desejou.

E esse é o verdadeiro significado de fazer algo por alguém. Dar sem transformar o gesto em cobrança.

Porque, no fim das contas, ninguém te deve nada. Ninguém ME deve nada. E eu também não devo nada a ninguém.

E que alívio existe nessa frase.

Porque, se ninguém me deve nada, eu também não preciso viver tentando pagar dívidas que nunca contraí.
Posso gostar de você sem precisar que você goste de mim.
Posso cuidar sem cobrar.
Posso ir embora quando for preciso.
Posso agradecer quem me ajudou sem transformar essa gratidão em uma obrigação eterna.
E posso, principalmente, deixar as pessoas serem quem elas são, e não quem eu decidi que elas deveriam ser depois de acompanhá-las de longe.

A gente precisa reaprender uma coisa muito simples: algumas coisas são dadas. Não são investimentos.

Uma oração é uma delas.
Um abraço também.
Um gesto de carinho.
Uma palavra.
Uma ajuda.
Um desejo sincero de que alguém fique bem.

E se depois de tudo isso eu precisar cobrar alguma coisa de você, então talvez eu nunca tenha realmente dado. Fiz apenas em benefício próprio, porque eu esperava que, no momento certo, o pagamento por aquela “gentileza” viria. Apenas atualizei o meu “livro-caixa afetivo”.

Gentileza que vem com cobrança não é gentileza. É negócio.



 

Eu tenho uma teoria.
Acredito que uma parte de quem somos possa ter sido criada por pessoas que nunca existiram.
Calma, peraí que eu explico. Estou falando dos personagens dos livros. Olha só, quantas vezes já terminamos um livro e ficamos alguns dias pensando em alguém que, tecnicamente, nunca existiu? Chorando por alguém que morreu sem nunca ter vivido de fato? Ou apenas por termos que nos despedir daquele personagem favorito que havia se tornado tudo o que tínhamos durante aquelas 5 horas e 378 páginas? Eu já fiz isso muitas vezes, faço ainda. Aliás, há despedidas que nunca superei. E também há lições, pensamentos, exemplos de atitudes dos quais nunca me esqueci.

Às vezes, quem fica nem é o protagonista. É aquele personagem secundário que apareceu por cinquenta páginas e, de alguma maneira, conseguiu deixar uma marca em nós.
Há personagens que nos ensinam quem queremos ser. Outros, nos ensinam exatamente como não devemos ser. Alguns nos irritam, outros nos fazem chorar. Alguns nos dão vontade de entrar dentro do livro, pegar aquela criatura pelos ombros e dizer: “MULHEEEERRRRRR!?!?!”

E há aqueles que simplesmente permanecem conosco, na nossa cabeça e, anos depois, ainda nos lembramos deles e de tudo o que nos disseram e da maneira com que nos ensinaram a enxergar o mundo.  Como quando estamos caminhando no parque ao cair da tarde e, do nada, nos lembramos de que nunca devemos fazer preces aos deuses que atendem depois do anoitecer (1). Ou quando vou à feira com minha mãe – coisa da qual não gosto muito, confesso – no domingo de manhã e, enquanto a ajudo a escolher as batatas para comprar, seguro uma nas mãos e juro que nunca mais eu e minha família haveremos de passar fome novamente (2). Ou quando estou em casa, num fim de tarde de sábado, tomando café e vendo meus gatos brincando com suas bolinhas feitas de sacola de supermercado – os melhores presentes na opinião deles – e sorrio, porque me sinto feliz e concordo que não é ruim comemorar uma vida simples (3). Enfim, acho que deu pra entender.

Esses personagens se tornam tão caros para nós que os mantemos no nosso interior como um eco que volta vez ou outra quando dizemos a frase certa. E é aí que os livros fazem uma coisa curiosa conosco: eles nos dão uma pequena amostra do que são outras vidas. Por algumas horas, nós somos outra pessoa, pensamos com a cabeça de outra pessoa, temos os medos de outra pessoa. Fazemos escolhas que talvez nunca tivéssemos coragem de fazer, amamos pessoas que nunca conhecemos, e até perdemos pessoas que nunca existiram.

E depois fechamos o livro e temos de voltar para a nossa própria vida. Só que é tarde demais, alguma coisa mudou e a gente sabe que não há mais como voltar para nossa vida porque já não somos mais os mesmos e, às vezes, não nos encaixamos mais.

Nunca concordei com o pensamento de que ler é apenas uma forma de entretenimento. Bem, claro que entretém. É divertido. Às vezes é uma fuga. É uma maneira maravilhosa de passar algumas horas sem precisar conversar com ninguém. (Muito importante.) Mas também é uma espécie de experiência. A gente entra numa história sendo uma pessoa e sai dela carregando alguma coisa que não tinha antes. Pode ser uma pergunta, uma ideia, uma frase. Um jeito diferente de olhar para alguém. Ou até uma pequena mudança na maneira como enxergamos a nós mesmos – ou o mundo.

Eu penso muito nisso quando lembro dos personagens que ficaram comigo. Tolkien, por exemplo – sempre. É impossível eu falar de livros que me ensinaram alguma coisa sem falar dele, porque o que ficou de O Senhor dos Anéis não foi apenas a história. Foram as pequenas escolhas, a coragem disfarçada de “ah, não tô fazendo nada melhor mesmo, vamos lá dar cabo desse anel”. Foram também a amizade, a lealdade. Foi o sorriso com o choro preso na garganta quando o rei se ajoelha e diz que You bow to no one. 😭😭😭 
Ficou a ideia de que alguém aparentemente pequeno pode carregar uma responsabilidade enorme nas costas – e no peito. Aquela sensação de que devemos continuar a qualquer preço, mesmo quando não sabemos exatamente como a história vai terminar.  

Talvez eu tenha aprendido alguma coisa sobre isso antes mesmo de perceber que estava aprendendo, e acho que isso acontece durante a leitura de muitos outros livros. Nós não lemos apenas histórias, experimentamos outras versões de nós mesmos que jamais conheceríamos se não tivéssemos aberto um livro.

Talvez eu nunca aja como determinada personagem, nem faça determinada escolha, ou talvez eu nem concorde com ela. Mas, por algumas páginas, eu posso imaginar como seria. E imaginar também transforma.

Às vezes, um personagem nos mostra uma parte nossa que já existia, mas que ainda não tinha nome. Às vezes, ele nos apresenta uma possibilidade, ou simplesmente confirma alguma coisa que já sabíamos. Talvez seja uma frase que aparece na nossa cabeça quando estamos diante de alguma situação que nos incomoda. Uma daquelas que não sabemos de onde veio, mas que sabemos exatamente o que significa. Como quando alguma coisa acontece e penso que, afinal, liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro (4).

E, de vez em quando, um personagem aparece para nos ensinar uma lição muito importante: “Não seja como eu”. E isso também serve. Bastante. Porque os livros estão cheios de pessoas tomando decisões questionáveis e deveríamos agradecer por isso, afinal, se todos os personagens fossem sensatos, equilibrados e emocionalmente maduros, não teríamos histórias, teríamos manuais de instruções. E ninguém quer ler um manual de instruções às onze da noite deitado na cama. (Bem, talvez eu queira. Mas isso é assunto para outro post.)

No fim, acho que carregamos muito mais personagens dentro de nós do que imaginamos. Alguns estão na estante, alguns na memória. Alguns aparecem quando precisamos de coragem, outros quando precisamos de cautela. Alguns voltam quando estamos passando por alguma coisa que eles também passaram. E existem aqueles que simplesmente aparecem de vez em quando, sem motivo nenhum, como velhos conhecidos que resolveram bater à nossa porta.

Talvez seja por isso que certos livros nunca terminem de verdade. Nós terminamos a última página, mas continuamos conversando com eles. Continuamos lembrando, fazendo perguntas e – o mais bonito – encontrando pequenas partes deles dentro de nós.

No fim das contas, acredito que seja isso mesmo que os livros fazem. Eles nos apresentam pessoas que não existem e que, de alguma maneira estranha e maravilhosa, nos ajudam a construir uma que existe. Nós.

 

“Eu vivi mil vidas e amei mil amores. Andei por mundos distantes e vi o fim dos tempos. Porque eu li”. George R. R. Martin







E se você ficou curioso...

(1) V. E. Schwab — A Vida Invisível de Addie LaRue
(2) Margaret Mitchell — E o Vento Levou
(3) J. R. R. Tolkien — O Senhor dos Anéis
(4) George Orwell — 1984 



Tenho uma teoria.

Acho que nós somos feitos de pequenas obsessões. Eu, com certeza, sou, pois, além de ser geminiana, eu tenho TDAH. Então, eu sou muito, muito curiosa e sei um pouco de tudo. Tipo, sou professora de Inglês, mas hoje consertei a cama quebrada dos meus gatos e, dias atrás, consertei minha impressora. (E eu fiz essas coisas mesmo.)

Mas não estou falando necessariamente de grandes paixões, daquelas que a gente coloca na biografia e diz com orgulho: “Sou apaixonada por isso e aquilo.”

Estou falando das pequenas coisas.
Daquelas que talvez ninguém perceba. Aquelas que são ordinárias.
De uma música que você ouve cinquenta vezes porque, por algum motivo, ela parece dizer exatamente aquilo que você não conseguiu dizer.
De um livro que você leu há dez anos e ainda lembra de uma frase.
De um personagem fictício que, estranhamente, parece entender você melhor do que algumas pessoas de verdade.
De uma palavra que você acha bonita.
De uma história que você não consegue parar de pesquisar mais e mais sobre.
De uma pergunta que fica na sua cabeça durante dias.
De um assunto que você começa a estudar “só por curiosidade” e, quando percebe, já está às quatro e dois da manhã lendo sobre ele.

Eu faço muito isso. Na verdade, talvez eu faça isso demais. Eu tenho uma curiosidade meio inconveniente. Se alguma coisa desperta meu interesse, eu quero saber mais. E depois mais um pouco. E, quando acho que já entendi, aparece outra pergunta.

E outra.

E outra.

Até porque, por causa do TDAH, meu cérebro tem apenas dois modos de funcionamento: completamente desinteressado ou absurdamente obcecado. E, quando me interesso por algo, eu compro livros, faço pesquisas, reviro o Google, pergunto para quem sabe, faço até curso. Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido me contentar muito bem com respostas prontas. Eu gosto de entender o que existe por trás das coisas.

Por que as pessoas fazem o que fazem.
Por que certas histórias nos emocionam tanto.
Por que alguns personagens permanecem conosco durante anos.
Por que determinadas músicas parecem saber exatamente onde tocar.
Por que alguns símbolos aparecem repetidamente na nossa vida.
Por que uma determinada ideia fica martelando na nossa cabeça enquanto tantas outras simplesmente passam.

Meu cérebro e meu espírito ficam em paz quando tenho respostas — sobre qualquer coisa. Talvez seja por isso também que eu goste tanto de livros.

Porque livros são pequenas máquinas de fabricar perguntas.

Você começa uma história pensando que vai descobrir quem matou o sujeito, quem vai ficar com quem ou se o herói finalmente vai conseguir destruir o anel (pegaram a referência marota?) — e termina pensando na própria vida.

E isso é maravilhoso.

Às vezes, acho que algumas das coisas que mais amamos dizem muito mais sobre nós do que aquelas características que usamos para nos definir.

Eu poderia dizer que sou professora.
Que amo ler.
Que amo mais ainda os gatos.
Que meu escritor favorito é Tolkien.
Que estudo Tarô, arquétipos, mitologia, italiano, espiritualidade, literatura, inteligência artificial — e eu estudo tudo isso mesmo. Até curso de Técnico em Veterinária eu já fiz para saber como cuidar melhor dos meus gatos. E mais um monte de outras coisas que provavelmente fariam uma pessoa muito objetiva perguntar: “Mas qual é exatamente o seu foco?”

E eu poderia responder.

Mas talvez a resposta mais verdadeira seja outra.
Eu gosto de descobrir.
Talvez essa seja uma das minhas maiores obsessões.

Descobrir.
Entender.
Relacionar coisas que, aparentemente, não têm nenhuma relação, mas que, na minha cabeça, têm.

Uma história com um símbolo.
Uma música com uma memória.
Um personagem com uma parte da minha personalidade.
Uma carta de Tarô com uma pergunta que eu estava tentando formular.
Um livro com uma fase da vida.
Uma conversa com uma ideia que só vai fazer sentido três meses depois, às duas da tarde de uma segunda-feira, quando eu estiver preparando aula para meus alunos. Ou no sábado à noite, enquanto eu estiver jogando Hogwarts Legacy ou Lords of the fallen (Adoro na vida!).

E talvez seja assim que a gente vai construindo quem é.
Não de uma vez.
Não através de uma grande descoberta sobre nós mesmos.
Mas aos poucos.
Com pequenas obsessões.
Com pequenas curiosidades.
Com coisas que nos fazem parar e pensar: “Nossa, eu gosto muito disso.”

E talvez exista alguma coisa profundamente bonita nisso.

Porque, olhando de fora, nossas pequenas obsessões podem parecer completamente aleatórias.

O que gatos têm a ver com Tolkien?
O que Tolkien tem a ver com arquétipos?
O que arquétipos têm a ver com psicologia?
O que psicologia tem a ver com uma música que você ouviu ontem?
Por que essa música te lembrou daquele livro?

Provavelmente tudo.
Ou talvez nada.

Mas eu gosto de acreditar que sempre existe alguma conexão escondida em algum lugar.
E talvez nem seja necessário encontrá-la.
Talvez o mais interessante seja continuar procurando.

No fim das contas, acho que somos um pouco como aquelas estantes cheias de livros em que ninguém sabe exatamente onde está cada coisa.

Tem uma história aqui.
Uma lembrança ali.
Uma obsessão antiga esquecida atrás de outra mais recente.
Um personagem que ainda mora em alguma prateleira.
Uma música guardada entre dois livros.
Uma pergunta que nunca foi respondida.
E, de vez em quando, a gente puxa um desses livros.
Abre.
Lê algumas páginas.
E percebe que aquilo ainda fala com a gente.

Talvez seja isso que significa crescer.

Não deixar de ser quem fomos, mas continuar acrescentando coisas à estante.
Novas histórias.
Novas perguntas.
Novas versões de nós mesmos.
E algumas obsessões completamente inexplicáveis.

Porque, sinceramente?

Eu ainda acho que uma boa parte da vida consiste justamente em descobrir por que diabos aquela coisa aparentemente insignificante conseguiu despertar tanto a nossa atenção. E, quando descobrimos...

Bom.

Aí provavelmente surge outra pergunta.

E começa tudo de novo.



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E é claro que eu perguntei ao Tarô se havia uma carta para este post. E havia!



O Julgamento — Arcano XX

O Julgamento é a carta do despertar, do chamado e do renascimento. Ela representa aquele momento em que algo nos faz acordar para uma verdade sobre nós mesmos e olhar para nossa história com mais consciência. É uma carta de reconhecimento e transformação: compreender o passado, integrar o que vivemos e seguir adiante a partir de uma nova consciência.

Em essência, esta carta fala de despertar, chamado, consciência, renascimento, reconhecimento, perdão e transformação.

No fundo, O Julgamento pergunta: “O que está tentando despertar em você?”

Acho que foi justamente por isso que o Tarô me deu essa carta quando perguntei se havia alguma que se conectava ao meu texto. 

Quando uma música insiste em voltar, quando um livro permanece na nossa memória durante anos, quando um personagem parece dizer alguma coisa sobre nós ou quando uma simples curiosidade nos leva a pesquisar, estudar, fazer cursos e querer saber cada vez mais, talvez essas coisas não sejam tão aleatórias quanto parecem.

Não significa necessariamente que exista um destino escondido por trás de cada interesse. Às vezes, algumas coisas simplesmente se conectam com o que há dentro de nós, e isso aparece muito no meu texto: gatos, Tolkien, Tarô, mitologia, idiomas, literatura, inteligência artificial, ensino, videogames... Separados, parecem interesses completamente diferentes. Juntos, começam a formar um retrato. O meu.

E é aí que O Julgamento aparece: olhar para todas essas partes e reconhecer que elas também contam a nossa história.

Não quer dizer que sejamos pessoas sem foco, mas, sim, pessoas feitas de conexões.

Pode ser que nossas pequenas obsessões sejam justamente os chamados que ainda não aprendemos a reconhecer e estejam ali justamente porque alguma parte de nós quer ser ouvida.

Porque, no fim, como eu disse no fim do meu devaneio, quando encontramos uma resposta, surge outra pergunta. E começa tudo de novo.

A trombeta toca. A gente escuta. E segue para descobrir o que vem depois.
 

 


Como mencionei ali na minha breve apresentação, ao lado direito, eu sou professora particular de Inglês. E agora mesmo terminei uma aula onde apresentei para a aluna a música (antiga) Standing outside the fire, de um cantor country chamado Garth Brooks. Vou colocá-la aqui, para quem quiser conferir:



Essa música fala sobre a coragem de se envolver verdadeiramente com a vida. O “fogo” é uma metáfora para tudo aquilo que nos transforma: amar, sonhar, lutar por algo, assumir riscos, sofrer, se entregar e permitir que as experiências nos afetem. "Ficar do lado de fora do fogo" significa escolher uma existência segura, observando tudo de longe para não se machucar, ficar na zona de conforto. Sua mensagem é que uma vida sem riscos pode até ser mais confortável, mas também pode ser uma vida que nunca foi plenamente experimentada, vivida. Para viver de verdade, precisamos aceitar que algumas escolhas vão doer, que podemos perder, fracassar ou nos ferir, mas que, ainda assim, vale a pena entrar no fogo. 

E há uma ideia muito forte por trás de toda a música: não é o sofrimento que dá sentido à vida, mas a disposição de se entregar a algo que importa, mesmo sabendo que existe a possibilidade de sofrimento.

Se eu tivesse que resumir a essência da música em uma única frase, seria: “Não passe a vida inteira protegendo-se daquilo que poderia fazê-la realmente valer a pena.”

E ao terminar a aula, eu fiquei com o significado dela borbulhando aqui na minha cabeça, então decidi escrever este post justamente pra dizer que às vezes a gente precisa sair da zona de conforto e se arriscar, porque, olha só, pode dar certo! Não vou mentir e dizer que não é confortável viver a nossa vidinha, a nossa rotina, com tudo sob controle, tudo em paz e sem caos. Mas onde está a emoção? Onde está a satisfação de tentar algo novo, se arriscar, lutar e conseguir vencer? E muitas vezes o resultado é muito melhor - e maior - do que a gente esperava. Aí você pode me dizer: "Ah, mas eu tenho medo do caos". Mas quer saber? O caos é uma escada. (Quem sabe, sabe.  😜)  

Como eu mencionei ontem, no primeiro post, eu estou estudando Tarô. E aí, pensando na profundidade da letra dessa música e sobre o que eu queria falar, eu também pedi ao Tarô que me desse a carta do dia, e pedi que fosse uma carta que se encaixasse perfeitamente ao significado da música. E a carta veio:

O CARRO: Arcano VII do Tarô, esta carta representa movimento, determinação, coragem, disciplina e conquista. A carta mostra um jovem conduzindo um carro puxado por duas esfinges opostas, uma clara e outra escura, simbolizando as forças contraditórias que existem dentro de nós, como razão e emoção, desejo e medo. O fato de não haver rédeas indica que seu verdadeiro poder não está na força física, mas no autodomínio e na capacidade de direcionar essas forças para um mesmo objetivo. O Carro é a passagem da escolha para a ação: depois de decidir o caminho (escolha que foi feita no post anterior, com a carta Os Enamorados), é preciso ter coragem para seguir em frente, superar obstáculos e assumir as rédeas da própria vida. No amor, pode indicar avanço e iniciativa, enquanto no trabalho favorece conquistas, crescimento e realização de objetivos. Quando invertido, pode apontar falta de direção, impulsividade ou excesso de controle. Em essência, O Carro nos ensina que não basta saber o que queremos; precisamos encontrar uma direção e ter determinação para conduzir nossa própria jornada até lá.


E aí, talvez você me pergunte: "Mas o que é que O Carro tem a ver com a música do Garth Brooks"? 

Espera, eu te conto.

Na verdade, a associação é muito bonita. Acho que a música captura uma dimensão de O Carro que às vezes fica escondida quando reduzimos a carta a “vitória” e “determinação”.

A música fala essencialmente sobre não viver de maneira passiva ou protegida demais. “Standing outside the fire” — ficar do lado de fora do fogo — representa observar a vida de uma distância segura, sem se arriscar, sem se entregar completamente. E a mensagem da música é justamente que uma vida verdadeiramente vivida exige coragem para entrar no fogo, mesmo sabendo que podemos nos ferir.

Isso conversa profundamente com O Carro. O personagem da carta está protegido por sua armadura, mas está em movimento. Ele não permanece parado esperando que o caminho se torne seguro. Ele escolhe uma direção e parte, enfrentando aquilo que surgir pelo caminho. As duas esfinges representam forças opostas que precisam ser conduzidas, assim como na música, que diz que precisamos aprender a lidar com medo e coragem, segurança e risco, desejo e prudência. O Carro, portanto, pode ser visto como aquele momento em que dizemos: “Eu poderia permanecer aqui, onde é seguro, mas escolho seguir.”

E existe outra conexão ainda mais bonita: O Carro não é simplesmente sobre vencer; é sobre ter coragem de viver a própria jornada. A música questiona justamente uma existência em que nunca nos arriscamos, nunca amamos profundamente, nunca perseguimos aquilo que queremos porque temos medo das consequências. O Carro responde: você não precisa controlar tudo para seguir em frente. Você precisa apenas encontrar uma direção e ter coragem de conduzir.

Talvez seja justamente isso que a música e O Carro estejam tentando nos lembrar: não precisamos esperar que o fogo deixe de ser fogo para entrar nele. Não precisamos esperar que o caminho esteja completamente seguro para começar a percorrê-lo. Às vezes, precisamos simplesmente escolher uma direção, respirar fundo e ir. Porque talvez, do outro lado do fogo, exista uma vida muito maior do que aquela que tínhamos medo de deixar para trás.

E o mais curioso é que a carta de hoje fez uma conexão e criou uma sequência muito bonita com a carta de ontem: primeiro fazemos nossa escolha, depois criamos coragem e seguimos. 


E sabe o que é mais louco? Isso tudo saiu de uma aula de Inglês!  😂





    



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Professora de inglês, leitora, curiosa e colecionadora de perguntas. Apaixonada por literatura, Tolkien, cultura pop, gatos (sou mãe de 3), Tarô e histórias que nos fazem olhar o mundo de um jeito diferente. Este é o meu pequeno espaço para escrever sobre tudo aquilo que desperta a minha curiosidade — porque algumas ideias simplesmente não aceitam ficar quietas. Talvez eu seja uma desconhecida para você agora, mas, se ficar por aqui, quem sabe a gente não se conheça um pouco melhor?

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