Notas de uma Desconhecida
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Eu tenho uma teoria.
Acredito que uma parte de quem somos possa ter sido criada por pessoas que nunca existiram.
Calma, peraí que eu explico. Estou falando dos personagens dos livros. Olha só, quantas vezes já terminamos um livro e ficamos alguns dias pensando em alguém que, tecnicamente, nunca existiu? Chorando por alguém que morreu sem nunca ter vivido de fato? Ou apenas por termos que nos despedir daquele personagem favorito que havia se tornado tudo o que tínhamos durante aquelas 5 horas e 378 páginas? Eu já fiz isso muitas vezes, faço ainda. Aliás, há despedidas que nunca superei. E também há lições, pensamentos, exemplos de atitudes dos quais nunca me esqueci.

Às vezes, quem fica nem é o protagonista. É aquele personagem secundário que apareceu por cinquenta páginas e, de alguma maneira, conseguiu deixar uma marca em nós.
Há personagens que nos ensinam quem queremos ser. Outros, nos ensinam exatamente como não devemos ser. Alguns nos irritam, outros nos fazem chorar. Alguns nos dão vontade de entrar dentro do livro, pegar aquela criatura pelos ombros e dizer: “MULHEEEERRRRRR!?!?!”

E há aqueles que simplesmente permanecem conosco, na nossa cabeça e, anos depois, ainda nos lembramos deles e de tudo o que nos disseram e da maneira com que nos ensinaram a enxergar o mundo.  Como quando estamos caminhando no parque ao cair da tarde e, do nada, nos lembramos de que nunca devemos fazer preces aos deuses que atendem depois do anoitecer (1). Ou quando vou à feira com minha mãe – coisa da qual não gosto muito, confesso – no domingo de manhã e, enquanto a ajudo a escolher as batatas para comprar, seguro uma nas mãos e juro que nunca mais eu e minha família haveremos de passar fome novamente (2). Ou quando estou em casa, num fim de tarde de sábado, tomando café e vendo meus gatos brincando com suas bolinhas feitas de sacola de supermercado – os melhores presentes na opinião deles – e sorrio, porque me sinto feliz e concordo que não é ruim comemorar uma vida simples (3). Enfim, acho que deu pra entender.

Esses personagens se tornam tão caros para nós que os mantemos no nosso interior como um eco que volta vez ou outra quando dizemos a frase certa. E é aí que os livros fazem uma coisa curiosa conosco: eles nos dão uma pequena amostra do que são outras vidas. Por algumas horas, nós somos outra pessoa, pensamos com a cabeça de outra pessoa, temos os medos de outra pessoa. Fazemos escolhas que talvez nunca tivéssemos coragem de fazer, amamos pessoas que nunca conhecemos, e até perdemos pessoas que nunca existiram.

E depois fechamos o livro e temos de voltar para a nossa própria vida. Só que é tarde demais, alguma coisa mudou e a gente sabe que não há mais como voltar para nossa vida porque já não somos mais os mesmos e, às vezes, não nos encaixamos mais.

Nunca concordei com o pensamento de que ler é apenas uma forma de entretenimento. Bem, claro que entretém. É divertido. Às vezes é uma fuga. É uma maneira maravilhosa de passar algumas horas sem precisar conversar com ninguém. (Muito importante.) Mas também é uma espécie de experiência. A gente entra numa história sendo uma pessoa e sai dela carregando alguma coisa que não tinha antes. Pode ser uma pergunta, uma ideia, uma frase. Um jeito diferente de olhar para alguém. Ou até uma pequena mudança na maneira como enxergamos a nós mesmos – ou o mundo.

Eu penso muito nisso quando lembro dos personagens que ficaram comigo. Tolkien, por exemplo – sempre. É impossível eu falar de livros que me ensinaram alguma coisa sem falar dele, porque o que ficou de O Senhor dos Anéis não foi apenas a história. Foram as pequenas escolhas, a coragem disfarçada de “ah, não tô fazendo nada melhor mesmo, vamos lá dar cabo desse anel”. Foram também a amizade, a lealdade. Foi o sorriso com o choro preso na garganta quando o rei se ajoelha e diz que You bow to no one. 😭😭😭 
Ficou a ideia de que alguém aparentemente pequeno pode carregar uma responsabilidade enorme nas costas – e no peito. Aquela sensação de que devemos continuar a qualquer preço, mesmo quando não sabemos exatamente como a história vai terminar.  

Talvez eu tenha aprendido alguma coisa sobre isso antes mesmo de perceber que estava aprendendo, e acho que isso acontece durante a leitura de muitos outros livros. Nós não lemos apenas histórias, experimentamos outras versões de nós mesmos que jamais conheceríamos se não tivéssemos aberto um livro.

Talvez eu nunca aja como determinada personagem, nem faça determinada escolha, ou talvez eu nem concorde com ela. Mas, por algumas páginas, eu posso imaginar como seria. E imaginar também transforma.

Às vezes, um personagem nos mostra uma parte nossa que já existia, mas que ainda não tinha nome. Às vezes, ele nos apresenta uma possibilidade, ou simplesmente confirma alguma coisa que já sabíamos. Talvez seja uma frase que aparece na nossa cabeça quando estamos diante de alguma situação que nos incomoda. Uma daquelas que não sabemos de onde veio, mas que sabemos exatamente o que significa. Como quando alguma coisa acontece e penso que, afinal, liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro (4).

E, de vez em quando, um personagem aparece para nos ensinar uma lição muito importante: “Não seja como eu”. E isso também serve. Bastante. Porque os livros estão cheios de pessoas tomando decisões questionáveis e deveríamos agradecer por isso, afinal, se todos os personagens fossem sensatos, equilibrados e emocionalmente maduros, não teríamos histórias, teríamos manuais de instruções. E ninguém quer ler um manual de instruções às onze da noite deitado na cama. (Bem, talvez eu queira. Mas isso é assunto para outro post.)

No fim, acho que carregamos muito mais personagens dentro de nós do que imaginamos. Alguns estão na estante, alguns na memória. Alguns aparecem quando precisamos de coragem, outros quando precisamos de cautela. Alguns voltam quando estamos passando por alguma coisa que eles também passaram. E existem aqueles que simplesmente aparecem de vez em quando, sem motivo nenhum, como velhos conhecidos que resolveram bater à nossa porta.

Talvez seja por isso que certos livros nunca terminem de verdade. Nós terminamos a última página, mas continuamos conversando com eles. Continuamos lembrando, fazendo perguntas e – o mais bonito – encontrando pequenas partes deles dentro de nós.

No fim das contas, acredito que seja isso mesmo que os livros fazem. Eles nos apresentam pessoas que não existem e que, de alguma maneira estranha e maravilhosa, nos ajudam a construir uma que existe. Nós.

 

“Eu vivi mil vidas e amei mil amores. Andei por mundos distantes e vi o fim dos tempos. Porque eu li”. George R. R. Martin







E se você ficou curioso...

(1) V. E. Schwab — A Vida Invisível de Addie LaRue
(2) Margaret Mitchell — E o Vento Levou
(3) J. R. R. Tolkien — O Senhor dos Anéis
(4) George Orwell — 1984 



Tenho uma teoria.

Acho que nós somos feitos de pequenas obsessões. Eu, com certeza, sou, pois, além de ser geminiana, eu tenho TDAH. Então, eu sou muito, muito curiosa e sei um pouco de tudo. Tipo, sou professora de Inglês, mas hoje consertei a cama quebrada dos meus gatos e, dias atrás, consertei minha impressora. (E eu fiz essas coisas mesmo.)

Mas não estou falando necessariamente de grandes paixões, daquelas que a gente coloca na biografia e diz com orgulho: “Sou apaixonada por isso e aquilo.”

Estou falando das pequenas coisas.
Daquelas que talvez ninguém perceba. Aquelas que são ordinárias.
De uma música que você ouve cinquenta vezes porque, por algum motivo, ela parece dizer exatamente aquilo que você não conseguiu dizer.
De um livro que você leu há dez anos e ainda lembra de uma frase.
De um personagem fictício que, estranhamente, parece entender você melhor do que algumas pessoas de verdade.
De uma palavra que você acha bonita.
De uma história que você não consegue parar de pesquisar mais e mais sobre.
De uma pergunta que fica na sua cabeça durante dias.
De um assunto que você começa a estudar “só por curiosidade” e, quando percebe, já está às três da manhã lendo sobre ele.

Eu faço muito isso. Na verdade, talvez eu faça isso demais. Eu tenho uma curiosidade meio inconveniente. Se alguma coisa desperta meu interesse, eu quero saber mais. E depois mais um pouco. E, quando acho que já entendi, aparece outra pergunta.

E outra.

E outra.

Até porque, por causa do TDAH, meu cérebro tem apenas dois modos de funcionamento: completamente desinteressado ou absurdamente obcecado. E, quando me interesso por algo, eu compro livros, faço pesquisas, reviro o Google, pergunto para quem sabe, faço até curso. Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido me contentar muito bem com respostas prontas. Eu gosto de entender o que existe por trás das coisas.

Por que as pessoas fazem o que fazem.
Por que certas histórias nos emocionam tanto.
Por que alguns personagens permanecem conosco durante anos.
Por que determinadas músicas parecem saber exatamente onde tocar.
Por que alguns símbolos aparecem repetidamente na nossa vida.
Por que uma determinada ideia fica martelando na nossa cabeça enquanto tantas outras simplesmente passam.

Meu cérebro e meu espírito ficam em paz quando tenho respostas — sobre qualquer coisa. Talvez seja por isso também que eu goste tanto de livros.

Porque livros são pequenas máquinas de fabricar perguntas.

Você começa uma história pensando que vai descobrir quem matou o sujeito, quem vai ficar com quem ou se o herói finalmente vai conseguir destruir o anel (pegaram a referência marota?) — e termina pensando na própria vida.

E isso é maravilhoso.

Às vezes, acho que algumas das coisas que mais amamos dizem muito mais sobre nós do que aquelas características que usamos para nos definir.

Eu poderia dizer que sou professora.
Que amo ler.
Que amo mais ainda os gatos.
Que meu escritor favorito é Tolkien.
Que estudo Tarô, arquétipos, mitologia, italiano, espiritualidade, literatura, inteligência artificial — e eu estudo tudo isso mesmo. Até curso de Técnico em Veterinária eu já fiz para saber como cuidar melhor dos meus gatos. E mais um monte de outras coisas que provavelmente fariam uma pessoa muito objetiva perguntar: “Mas qual é exatamente o seu foco?”

E eu poderia responder.

Mas talvez a resposta mais verdadeira seja outra.
Eu gosto de descobrir.
Talvez essa seja uma das minhas maiores obsessões.

Descobrir.
Entender.
Relacionar coisas que, aparentemente, não têm nenhuma relação, mas que, na minha cabeça, têm.

Uma história com um símbolo.
Uma música com uma memória.
Um personagem com uma parte da minha personalidade.
Uma carta de Tarô com uma pergunta que eu estava tentando formular.
Um livro com uma fase da vida.
Uma conversa com uma ideia que só vai fazer sentido três meses depois, às duas da tarde de uma segunda-feira, quando eu estiver preparando aula para meus alunos. Ou no sábado à noite, enquanto eu estiver jogando Hogwarts Legacy ou Lords of the fallen (Adoro na vida!).

E talvez seja assim que a gente vai construindo quem é.
Não de uma vez.
Não através de uma grande descoberta sobre nós mesmos.
Mas aos poucos.
Com pequenas obsessões.
Com pequenas curiosidades.
Com coisas que nos fazem parar e pensar: “Nossa, eu gosto muito disso.”

E talvez exista alguma coisa profundamente bonita nisso.

Porque, olhando de fora, nossas pequenas obsessões podem parecer completamente aleatórias.

O que gatos têm a ver com Tolkien?
O que Tolkien tem a ver com arquétipos?
O que arquétipos têm a ver com psicologia?
O que psicologia tem a ver com uma música que você ouviu ontem?
Por que essa música te lembrou daquele livro?

Provavelmente tudo.
Ou talvez nada.

Mas eu gosto de acreditar que sempre existe alguma conexão escondida em algum lugar.
E talvez nem seja necessário encontrá-la.
Talvez o mais interessante seja continuar procurando.

No fim das contas, acho que somos um pouco como aquelas estantes cheias de livros em que ninguém sabe exatamente onde está cada coisa.

Tem uma história aqui.
Uma lembrança ali.
Uma obsessão antiga esquecida atrás de outra mais recente.
Um personagem que ainda mora em alguma prateleira.
Uma música guardada entre dois livros.
Uma pergunta que nunca foi respondida.
E, de vez em quando, a gente puxa um desses livros.
Abre.
Lê algumas páginas.
E percebe que aquilo ainda fala com a gente.

Talvez seja isso que significa crescer.

Não deixar de ser quem fomos, mas continuar acrescentando coisas à estante.
Novas histórias.
Novas perguntas.
Novas versões de nós mesmos.
E algumas obsessões completamente inexplicáveis.

Porque, sinceramente?

Eu ainda acho que uma boa parte da vida consiste justamente em descobrir por que diabos aquela coisa aparentemente insignificante conseguiu despertar tanto a nossa atenção. E, quando descobrimos...

Bom.

Aí provavelmente surge outra pergunta.

E começa tudo de novo.



─────── ❦ 🐈‍⬛ 🐾 🐈 🐾 🐈‍⬛ ❦ ───────


E é claro que eu perguntei ao Tarô se havia uma carta para este post. E havia!



O Julgamento — Arcano XX

O Julgamento é a carta do despertar, do chamado e do renascimento. Ela representa aquele momento em que algo nos faz acordar para uma verdade sobre nós mesmos e olhar para nossa história com mais consciência. É uma carta de reconhecimento e transformação: compreender o passado, integrar o que vivemos e seguir adiante a partir de uma nova consciência.

Em essência, esta carta fala de despertar, chamado, consciência, renascimento, reconhecimento, perdão e transformação.

No fundo, O Julgamento pergunta: “O que está tentando despertar em você?”

Acho que foi justamente por isso que o Tarô me deu essa carta quando perguntei se havia alguma que se conectava ao meu texto. 

Quando uma música insiste em voltar, quando um livro permanece na nossa memória durante anos, quando um personagem parece dizer alguma coisa sobre nós ou quando uma simples curiosidade nos leva a pesquisar, estudar, fazer cursos e querer saber cada vez mais, talvez essas coisas não sejam tão aleatórias quanto parecem.

Não significa necessariamente que exista um destino escondido por trás de cada interesse. Às vezes, algumas coisas simplesmente se conectam com o que há dentro de nós, e isso aparece muito no meu texto: gatos, Tolkien, Tarô, mitologia, idiomas, literatura, inteligência artificial, ensino, videogames... Separados, parecem interesses completamente diferentes. Juntos, começam a formar um retrato. O meu.

E é aí que O Julgamento aparece: olhar para todas essas partes e reconhecer que elas também contam a nossa história.

Não quer dizer que sejamos pessoas sem foco, mas, sim, pessoas feitas de conexões.

Pode ser que nossas pequenas obsessões sejam justamente os chamados que ainda não aprendemos a reconhecer e estejam ali justamente porque alguma parte de nós quer ser ouvida.

Porque, no fim, como eu disse no fim do meu devaneio, quando encontramos uma resposta, surge outra pergunta. E começa tudo de novo.

A trombeta toca. A gente escuta. E segue para descobrir o que vem depois.
 

 


Como mencionei ali na minha breve apresentação, ao lado direito, eu sou professora particular de Inglês. E agora mesmo terminei uma aula onde apresentei para a aluna a música (antiga) Standing outside the fire, de um cantor country chamado Garth Brooks. Vou colocá-la aqui, para quem quiser conferir:



Essa música fala sobre a coragem de se envolver verdadeiramente com a vida. O “fogo” é uma metáfora para tudo aquilo que nos transforma: amar, sonhar, lutar por algo, assumir riscos, sofrer, se entregar e permitir que as experiências nos afetem. "Ficar do lado de fora do fogo" significa escolher uma existência segura, observando tudo de longe para não se machucar, ficar na zona de conforto. Sua mensagem é que uma vida sem riscos pode até ser mais confortável, mas também pode ser uma vida que nunca foi plenamente experimentada, vivida. Para viver de verdade, precisamos aceitar que algumas escolhas vão doer, que podemos perder, fracassar ou nos ferir, mas que, ainda assim, vale a pena entrar no fogo. 

E há uma ideia muito forte por trás de toda a música: não é o sofrimento que dá sentido à vida, mas a disposição de se entregar a algo que importa, mesmo sabendo que existe a possibilidade de sofrimento.

Se eu tivesse que resumir a essência da música em uma única frase, seria: “Não passe a vida inteira protegendo-se daquilo que poderia fazê-la realmente valer a pena.”

E ao terminar a aula, eu fiquei com o significado dela borbulhando aqui na minha cabeça, então decidi escrever este post justamente pra dizer que às vezes a gente precisa sair da zona de conforto e se arriscar, porque, olha só, pode dar certo! Não vou mentir e dizer que não é confortável viver a nossa vidinha, a nossa rotina, com tudo sob controle, tudo em paz e sem caos. Mas onde está a emoção? Onde está a satisfação de tentar algo novo, se arriscar, lutar e conseguir vencer? E muitas vezes o resultado é muito melhor - e maior - do que a gente esperava. Aí você pode me dizer: "Ah, mas eu tenho medo do caos". Mas quer saber? O caos é uma escada. (Quem sabe, sabe.  😜)  

Como eu mencionei ontem, no primeiro post, eu estou estudando Tarô. E aí, pensando na profundidade da letra dessa música e sobre o que eu queria falar, eu também pedi ao Tarô que me desse a carta do dia, e pedi que fosse uma carta que se encaixasse perfeitamente ao significado da música. E a carta veio:

O CARRO: Arcano VII do Tarô, esta carta representa movimento, determinação, coragem, disciplina e conquista. A carta mostra um jovem conduzindo um carro puxado por duas esfinges opostas, uma clara e outra escura, simbolizando as forças contraditórias que existem dentro de nós, como razão e emoção, desejo e medo. O fato de não haver rédeas indica que seu verdadeiro poder não está na força física, mas no autodomínio e na capacidade de direcionar essas forças para um mesmo objetivo. O Carro é a passagem da escolha para a ação: depois de decidir o caminho (escolha que foi feita no post anterior, com a carta Os Enamorados), é preciso ter coragem para seguir em frente, superar obstáculos e assumir as rédeas da própria vida. No amor, pode indicar avanço e iniciativa, enquanto no trabalho favorece conquistas, crescimento e realização de objetivos. Quando invertido, pode apontar falta de direção, impulsividade ou excesso de controle. Em essência, O Carro nos ensina que não basta saber o que queremos; precisamos encontrar uma direção e ter determinação para conduzir nossa própria jornada até lá.


E aí, talvez você me pergunte: "Mas o que é que O Carro tem a ver com a música do Garth Brooks"? 

Espera, eu te conto.

Na verdade, a associação é muito bonita. Acho que a música captura uma dimensão de O Carro que às vezes fica escondida quando reduzimos a carta a “vitória” e “determinação”.

A música fala essencialmente sobre não viver de maneira passiva ou protegida demais. “Standing outside the fire” — ficar do lado de fora do fogo — representa observar a vida de uma distância segura, sem se arriscar, sem se entregar completamente. E a mensagem da música é justamente que uma vida verdadeiramente vivida exige coragem para entrar no fogo, mesmo sabendo que podemos nos ferir.

Isso conversa profundamente com O Carro. O personagem da carta está protegido por sua armadura, mas está em movimento. Ele não permanece parado esperando que o caminho se torne seguro. Ele escolhe uma direção e parte, enfrentando aquilo que surgir pelo caminho. As duas esfinges representam forças opostas que precisam ser conduzidas, assim como na música, que diz que precisamos aprender a lidar com medo e coragem, segurança e risco, desejo e prudência. O Carro, portanto, pode ser visto como aquele momento em que dizemos: “Eu poderia permanecer aqui, onde é seguro, mas escolho seguir.”

E existe outra conexão ainda mais bonita: O Carro não é simplesmente sobre vencer; é sobre ter coragem de viver a própria jornada. A música questiona justamente uma existência em que nunca nos arriscamos, nunca amamos profundamente, nunca perseguimos aquilo que queremos porque temos medo das consequências. O Carro responde: você não precisa controlar tudo para seguir em frente. Você precisa apenas encontrar uma direção e ter coragem de conduzir.

Talvez seja justamente isso que a música e O Carro estejam tentando nos lembrar: não precisamos esperar que o fogo deixe de ser fogo para entrar nele. Não precisamos esperar que o caminho esteja completamente seguro para começar a percorrê-lo. Às vezes, precisamos simplesmente escolher uma direção, respirar fundo e ir. Porque talvez, do outro lado do fogo, exista uma vida muito maior do que aquela que tínhamos medo de deixar para trás.

E o mais curioso é que a carta de hoje fez uma conexão e criou uma sequência muito bonita com a carta de ontem: primeiro fazemos nossa escolha, depois criamos coragem e seguimos. 


E sabe o que é mais louco? Isso tudo saiu de uma aula de Inglês!  😂





    




 

Sou noite, sempre. Sou, na maioria das vezes, inverno, dias gelados. Quando quero, sou Outono. Definitivamente não sou verão. Também sou dia de chuva. Sou de música clássica a pop. Sou “eu te amo”. Sou gato. Sou série num sábado à tarde. Sou jantar em casa com os amigos. Sou sossego, silêncio. Sou Shakespeare e Pablo Neruda. Sou segredos. Sou o fantástico e o improvável. Sou emoção e impulso. Sou brava e, também, sou sinceridade. Sou Coca-Cola, mas também gosto de ser suco. Sou livros, muitos e sempre. Sou deitar no chão, na grama. Sou brigadeiro na panela. Sou penumbra. Sou pão de queijo e o caseiro também. Sou flores. Praia, eu sou um pouco. Mas sou muito mato e rio. Não sou sol, sou vento. Sou Tolkien. Sou capuccino quentinho em caneca de louça. Sou meias coloridas. Sou jardim. Sou anjos, santos, Deus, universo e espiritualidade. Sou sorvete de passas ao rum. Sou sonhos. Sou descalça em chão de estrelas. Sou paz, embora às vezes eu precise ser guerra. Sou lilás. Sou fotos. Sou batatas fritas – e quem não é? Sou Ovomaltine. Sou muita leitura e igualmente sou escrita. Sou conversa. Sou poesia escrita nas portas e paredes. Sou estrelas no teto. Sou pipoca. Sou a menina no salto e a mulher na gangorra. Sou estrada em fim de tarde. Sou agraciada. Sou sono até tarde e sou pijama. Sou bagunça. Sou cinema. Sou diário. Sou família e sou fim de semana. Amor eu sou todos os dias. Sou gênio forte, mas também sou justiça. Sou verdade. Sou caneta mais do que lápis. Sou trovão. Sou simplicidade. Sou dengo e tempestade. Sou pra sempre. Sou várias em uma só.




Houve um tempo em que eu tive um blog. Aliás, eu tive vários, nas minhas várias fases, por muitos anos. Não era sobre beleza, sobre filmes, séries, músicas, nada disso. Era apenas sobre minhas vivências e minhas divagações. Não sei se o Blogger ainda tem a ferramenta de importar posts antigos para outro blog, mas, se tiver, talvez eu o faça. Sinto falta daquelas partes de mim. 

Enfim, o ponto é que, hoje, com o bombardeio de informações a que somos submetidos o tempo todo e o excesso de textos e conteúdos criados por inteligência artificial (e não me tomem aqui como inimiga da IA, pelo contrário. Eu, como professora particular de Inglês, utilizo muito a IA na elaboração das minhas lições para meus alunos, mas usando-a apenas criar alguns textos, exercícios e imagens, para as lições, nada além disso), de repente senti a necessidade de reduzir o ruído e transbordar meus pensamentos em algum lugar. Um lugar onde eu não precise transformar tudo em conteúdo. Onde uma ideia possa simplesmente ser uma ideia, sem precisar virar carrossel, vídeo de quinze segundos, thread, lista de cinco coisas que você precisa saber ou qualquer outra coisa que o algoritmo tenha decidido que as pessoas querem consumir naquele dia. 

Aqui eu quero falar sobre meus gostos e desgostos, meus livros preferidos, sobre teorias, coisas estranhas que descobri às três da manhã, lembranças, opiniões impopulares... enfim, tudo o que me vier à mente. 

Curiosamente, esta ideia de blog me veio do nada, enquanto eu estava justamente estudando o Tarô (que é um dos meus inúmeros interesses nesta vida), que fala tanto sobre ciclos, caminhos, começos e recomeços. E então surgiu a vontade de (re)começar alguma coisa. E depois que essa ideia apareceu, eu não consegui mais me concentrar nas cartas, só pensava em criar um blog. Bem, aqui estamos. Quero que este seja um lugar para falar de coisas que não precisam necessariamente servir para alguma coisa.

Posso dizer que fiz parte da grande era de ouro dos blogs, me lembro de como as coisas funcionavam e de como a comunidade era legal. Hoje em dia, pra ser sincera, eu não sei se ainda existe alguém que leia blogs. Acho difícil. Mas talvez quem escreve não o faça, antes de tudo, para ser lido, mas para extravasar o que não cabe mais dentro de si. 

Havia quem fizesse posts diários, mensais ou até semanais. Eu não vou precisar uma frequência. Talvez eu faça dez posts em um dia e nenhum no outro. Talvez eu tenha muito a dizer por um mês e depois passe dois em silêncio (já conseguiram descobrir meu signo? ahahaha). Mas estarei por aqui e falarei sobre coisas. 

Estranho, não sei bem o que dizer num primeiro post. Não é como se eu nunca tivesse tido um blog antes, mas, ao mesmo tempo, parece que é a primeira vez que "apareço" na internet. 

Enfim, por ora, acho que é isso. 
Não sei exatamente o que este blog vai ser e talvez essa seja justamente a graça. 
Por enquanto, é apenas um lugar para colocar algumas coisas para fora. Pensamentos, livros, gatos, teorias, lembranças, descobertas, coisas que me irritam, coisas que me encantam e provavelmente algumas opiniões que ninguém pediu.

Talvez ninguém leia. Talvez alguém leia. Talvez eu escreva amanhã, talvez daqui a três semanas. Mas, de algum modo, depois de tantos anos, eu estou aqui novamente.

E acho que estava com saudade.






E, já que eu contei que estava estudando o Tarô quando tive a ideia do blog, quero deixar aqui a carta do dia:

OS ENAMORADOS

Esta é muito mais do que a carta do amor e do romance: representa escolhas, desejos, valores e alinhamento interior. A imagem do homem e da mulher diante do anjo simboliza o encontro entre desejo, consciência e uma dimensão mais elevada, enquanto a serpente e as árvores remetem ao conhecimento, à tentação e às consequências das escolhas. No amor, a carta pode indicar conexão profunda e reciprocidade, mas também nos lembra que amar é, sobretudo, escolher. Em outras áreas da vida, pode surgir diante de uma encruzilhada, convidando-nos a decidir entre caminhos, oportunidades ou partes de nós mesmos. Suas grandes perguntas são: O que você realmente quer? Essa escolha está de acordo com quem você é? Assim, Os Enamorados nos ensinam que não basta sentir intensamente, é preciso escolher conscientemente aquilo que está alinhado aos nossos valores e ter coragem de assumir essa escolha.


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Professora de inglês, leitora, curiosa e colecionadora de perguntas. Apaixonada por literatura, Tolkien, cultura pop, gatos (sou mãe de 3), Tarô e histórias que nos fazem olhar o mundo de um jeito diferente. Este é o meu pequeno espaço para escrever sobre tudo aquilo que desperta a minha curiosidade — porque algumas ideias simplesmente não aceitam ficar quietas. Talvez eu seja uma desconhecida para você agora, mas, se ficar por aqui, quem sabe a gente não se conheça um pouco melhor?

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