As pessoas que os livros nos ensinaram a ser
Eu tenho uma
teoria.
Acredito que uma parte de quem somos possa ter sido criada por pessoas que
nunca existiram.
Calma, peraí que eu explico. Estou falando dos personagens dos livros. Olha só, quantas vezes já terminamos
um livro e ficamos alguns dias pensando em alguém que, tecnicamente, nunca
existiu? Chorando por alguém que morreu sem nunca ter vivido de fato? Ou apenas
por termos que nos despedir daquele personagem favorito que havia se tornado
tudo o que tínhamos durante aquelas 5 horas e 378 páginas? Eu já fiz isso muitas vezes, faço ainda. Aliás, há despedidas que nunca
superei. E também há lições, pensamentos, exemplos de atitudes dos quais nunca
me esqueci.
Às vezes, quem fica nem é o protagonista. É aquele personagem secundário que
apareceu por cinquenta páginas e, de alguma maneira, conseguiu deixar uma marca
em nós.
Há personagens que nos ensinam quem queremos ser. Outros, nos ensinam
exatamente como não devemos ser. Alguns nos irritam, outros nos fazem chorar. Alguns
nos dão vontade de entrar dentro do livro, pegar aquela criatura pelos ombros e
dizer: “MULHEEEERRRRRR!?!?!”
E há aqueles que simplesmente permanecem conosco, na nossa cabeça e, anos
depois, ainda nos lembramos deles e de tudo o que nos disseram e da maneira com
que nos ensinaram a enxergar o mundo. Como
quando estamos caminhando no parque ao cair da tarde e, do nada, nos lembramos
de que nunca devemos fazer preces aos deuses que atendem depois do anoitecer
(1). Ou quando vou à feira com minha mãe – coisa da qual não gosto muito,
confesso – no domingo de manhã e, enquanto a ajudo a escolher as batatas para
comprar, seguro uma nas mãos e juro que nunca mais eu e minha família
haveremos de passar fome novamente (2). Ou quando estou em casa, num fim de
tarde de sábado, tomando café e vendo meus gatos brincando com suas bolinhas feitas
de sacola de supermercado – os melhores presentes na opinião deles – e sorrio,
porque me sinto feliz e concordo que não é ruim comemorar uma vida simples
(3). Enfim, acho que deu pra entender.
Esses personagens se tornam tão caros para nós que os mantemos no nosso interior como um eco que volta vez ou outra quando dizemos a frase certa. E é aí que os livros fazem uma coisa curiosa conosco: eles nos dão uma pequena amostra do que são outras vidas. Por algumas horas, nós somos outra pessoa, pensamos com a cabeça de outra pessoa, temos os medos de outra pessoa. Fazemos escolhas que talvez nunca tivéssemos coragem de fazer, amamos pessoas que nunca conhecemos, e até perdemos pessoas que nunca existiram.
E depois
fechamos o livro e temos de voltar para a nossa própria vida. Só que é tarde
demais, alguma coisa mudou e a gente sabe que não há mais como voltar para
nossa vida porque já não somos mais os mesmos e, às vezes, não nos encaixamos
mais.
Nunca concordei
com o pensamento de que ler é apenas uma forma de entretenimento. Bem, claro
que entretém. É divertido. Às vezes é uma fuga. É uma maneira maravilhosa de
passar algumas horas sem precisar conversar com ninguém. (Muito importante.) Mas também é
uma espécie de experiência. A gente entra numa história sendo uma pessoa e sai dela carregando alguma coisa
que não tinha antes. Pode ser uma pergunta, uma ideia, uma frase. Um jeito
diferente de olhar para alguém. Ou até uma pequena mudança na maneira como
enxergamos a nós mesmos – ou o mundo.
Eu penso muito
nisso quando lembro dos personagens que ficaram comigo. Tolkien, por exemplo – sempre. É impossível eu falar de livros que me ensinaram
alguma coisa sem falar dele, porque o que ficou de O Senhor dos Anéis não foi
apenas a história. Foram as pequenas escolhas, a coragem disfarçada de “ah, não
tô fazendo nada melhor mesmo, vamos lá dar cabo desse anel”. Foram também a amizade, a lealdade. Foi o sorriso com o choro preso na garganta quando o rei se ajoelha e diz que You bow to no
one. 😭😭😭
Ficou a ideia de que alguém aparentemente pequeno pode carregar uma responsabilidade enorme nas costas – e no peito. Aquela sensação de que devemos continuar a qualquer preço, mesmo quando não sabemos exatamente como a história vai terminar.
Ficou a ideia de que alguém aparentemente pequeno pode carregar uma responsabilidade enorme nas costas – e no peito. Aquela sensação de que devemos continuar a qualquer preço, mesmo quando não sabemos exatamente como a história vai terminar.
Talvez eu
tenha aprendido alguma coisa sobre isso antes mesmo de perceber que estava
aprendendo, e acho que isso acontece durante a leitura de muitos outros livros.
Nós não lemos apenas histórias, experimentamos outras versões de nós mesmos que jamais conheceríamos se não tivéssemos aberto um livro.
Talvez eu nunca aja como determinada personagem, nem faça determinada escolha, ou
talvez eu nem concorde com ela. Mas, por algumas páginas, eu posso imaginar
como seria. E imaginar também transforma.
Às vezes, um personagem nos mostra uma parte nossa que já existia, mas que
ainda não tinha nome. Às vezes, ele nos apresenta uma possibilidade, ou
simplesmente confirma alguma coisa que já sabíamos. Talvez seja
uma frase que aparece na nossa cabeça quando estamos diante de alguma situação
que nos incomoda. Uma daquelas que não sabemos de onde veio, mas que sabemos
exatamente o que significa. Como quando alguma coisa acontece e penso que,
afinal, liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro (4).
E, de vez em quando, um personagem aparece para nos ensinar uma lição muito
importante: “Não seja como eu”. E isso também serve. Bastante. Porque os livros
estão cheios de pessoas tomando decisões questionáveis e deveríamos agradecer
por isso, afinal, se todos os personagens fossem sensatos, equilibrados e
emocionalmente maduros, não teríamos histórias, teríamos manuais de instruções. E ninguém quer ler um manual de instruções às onze da noite deitado na cama. (Bem, talvez eu queira. Mas isso é assunto para outro post.)
No fim, acho que carregamos muito mais personagens dentro de nós do que
imaginamos. Alguns estão na estante, alguns na memória. Alguns aparecem quando
precisamos de coragem, outros quando precisamos de cautela. Alguns voltam
quando estamos passando por alguma coisa que eles também passaram. E existem aqueles que simplesmente aparecem de vez em quando, sem motivo
nenhum, como velhos conhecidos que resolveram bater à nossa porta.
Talvez seja por isso que certos livros nunca terminem de verdade. Nós terminamos a última página, mas continuamos conversando com eles. Continuamos
lembrando, fazendo perguntas e – o mais bonito – encontrando pequenas partes
deles dentro de nós.
No fim das contas, acredito que seja isso mesmo que os livros fazem. Eles nos
apresentam pessoas que não existem e que, de alguma maneira estranha e maravilhosa,
nos ajudam a construir uma que existe. Nós.
“Eu vivi mil vidas e amei mil amores. Andei por mundos distantes e vi o fim dos tempos. Porque eu li”. George R. R. Martin
E se você ficou curioso...
(1) V. E. Schwab — A Vida Invisível de Addie LaRue
(2) Margaret Mitchell — E o Vento Levou
(3) J. R. R. Tolkien — O Senhor dos Anéis
(4) George Orwell — 1984
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