Acredito que algumas pessoas tenham dificuldade de entender
no que exatamente eu acredito em termos de religião e espiritualidade e, para
ser sincera, acho que eu também não saberia responder de um jeito simples: “Sou
isso ou aquilo”.
Se alguém me perguntar: "Qual é a sua religião?", provavelmente eu
vou ficar alguns segundos em silêncio antes de responder, não porque eu não
acredite em Deus – ou no “Ser Superior”, no “Universo” ou como você prefira
chamar –, muito pelo contrário. O fato é que eu acredito em coisas demais para
conseguir colocar tudo isso sob apenas uma etiqueta.
Eu não tenho uma religião. Mas tenho uma busca. Há uma
diferença enorme entre essas duas coisas. Eu não me considero dona da verdade,
nem acho que uma única religião tenha recebido, em algum momento da história,
uma espécie de certificado dizendo: "Parabéns. Vocês acertaram tudo e todo
o resto está errado.". Eu não consigo pensar assim, porque acredito que
existem muitos caminhos. Caminhos diferentes, culturas diferentes, símbolos
diferentes, maneiras diferentes de compreender o mundo e o sagrado. E pra mim,
todos esses caminhos convergem para o mesmo Deus, para a mesma verdade, para o mesmo
desejo humano de compreender por que estamos aqui e o que fazemos com o tempo
que nos foi dado.
E eu não consigo olhar para uma pessoa e pensar que ela está errada simplesmente
porque encontrou Deus por um caminho diferente do meu. Se a sua religião faz você ser uma pessoa mais amorosa, mais generosa, mais
humilde, mais compassiva, mais consciente dos seus próprios erros, então,
sinceramente? Fique aí. Permaneça nela. Talvez esse seja exatamente o lugar
onde você precisa estar.
Eu não preciso concordar com tudo aquilo em que você acredita para respeitar
você. Aliás, acho que esse é um dos grandes problemas que enfrentamos nos dias
de hoje: confundimos respeito com concordância. Não são a mesma coisa. Eu posso pensar diferente de você e ainda assim reconhecer sua humanidade. Posso não acreditar na sua doutrina e ainda respeitar profundamente a sua fé. Posso estudar uma tradição sem precisar adotá-la, e também posso abandonar uma
ideia sem precisar atacar quem continua acreditando nela. Pra mim, isso é liberdade.
E é por isso que eu não gosto de rótulos. Eu gosto de
estudar. Muito.
Gosto de abrir um livro e entrar em uma ideia que nunca havia considerado
antes. Gosto de conhecer religiões diferentes, filosofias diferentes, símbolos
diferentes, maneiras diferentes de enxergar a existência. Eu estudo Tarot, arquétipos
e Cabala. Leio sobre astrologia, sobre a vida dos santos (amo profundamente a
história de Padre Pio), sobre anjos, sobre os deuses antigos – e os novos
também – , leio os evangelhos apócrifos e leio sobre Ocultismo.
Tenho curiosidade sobre espiritismo, cristianismo,
espiritualidade, tradições diferentes de povos diferentes, sobre física,
buracos negros, buracos de minhoca e o horizonte de eventos.
E não, eu não acredito em tudo o que leio. Justamente por isso eu leio, porque
não está em mim apenas engolir o que me dizem os líderes religiosos e tomar
isso como verdade, sem saber de onde tiraram aquilo, se suas afirmações têm
fundamento e sem saber em que se baseiam. Eu não acredito em alguma coisa
simplesmente porque alguém me diz que eu deveria. Eu quero conhecer primeiro e
pensar depois.
Questionar.
Comparar.
Sentir e refletir.
E então decidir.
Existe uma frase de Paulo que sempre me acompanha: “Examinai tudo. Retende o
que é bom." (1 Tessalonicenses 5:21) É uma descrição exata da maneira
como eu gosto de viver. Eu examino, leio, escuto, estudo, comparo, questiono e
reflito. E, no final, algumas coisas ficam, outras não. Aquilo que faz sentido
para mim, eu guardo. Aquilo que toca alguma coisa dentro de mim, levo comigo. E
o que não conversa com aquilo que penso, com aquilo que sinto ou com os meus
princípios, eu simplesmente deixo passar sem precisar transformar isso numa
guerra, nem convencer ninguém. E, principalmente, sem precisar jogar pedra na
religião de ninguém. Aliás, eu não gosto de jogar pedra em religião nenhuma.
Nem em quem não acredita em nada relacionado a isso.
Existem coisas dentro das religiões que fazem sentido para mim e outras que não
fazem. Eu sou uma pessoa que prefere recolher pequenas luzes pelo caminho. Uma
ideia daqui, um ensinamento dali. Uma pergunta que encontrei em um livro, um
símbolo que me fez pensar. Uma história que mudou alguma coisa dentro de mim, uma
experiência que ainda não sei explicar. E vou juntando tudo isso, não para
montar uma religião particular, mas para tentar compreender a mim mesma e a
minha relação com Deus – ou quem (ou o que) quer que ele seja.
Eu vivo em uma constante busca. Não porque eu esteja perdida,
mas porque ainda tenho perguntas e muitas coisas a descobrir e aprender. Gosto
da possibilidade de descobrir amanhã alguma coisa que hoje ainda não consigo
enxergar. E é por isso que eu não sinto necessidade de colocar uma plaquinha na
porta dizendo quem eu sou, tipo “Sou isso”, "sou aquilo". "Eu
acredito nisso, não naquilo." A vida é muito maior do que as nossas
etiquetas.
E Deus – ou quem (ou o que) quer que Deus seja –, se é mesmo
infinito como acreditamos que seja, certamente não cabe nas nossas caixinhas. Então
eu continuo estudando, lendo, perguntando. Continuo encontrando Deus em lugares
inesperados e continuo guardando aquilo que considero bom. O resto? Eu deixo
pelo caminho.
Sem raiva.
Sem julgamento.
Sem pedras nas mãos.
No fim das contas, pra mim, a pergunta mais importante não é "Qual é a
sua religião?", mas "Que tipo de pessoa a sua fé está fazendo
de você?"
Essa, para mim, é uma pergunta que vale a pena responder.



