Notas sobre buscar respostas.


Tenho uma teoria.

Acho que nós somos feitos de pequenas obsessões. Eu, com certeza, sou, pois, além de ser geminiana, eu tenho TDAH. Então, eu sou muito, muito curiosa e sei um pouco de tudo. Tipo, sou professora de Inglês, mas hoje consertei a cama quebrada dos meus gatos e, dias atrás, consertei minha impressora. (E eu fiz essas coisas mesmo.)

Mas não estou falando necessariamente de grandes paixões, daquelas que a gente coloca na biografia e diz com orgulho: “Sou apaixonada por isso e aquilo.”

Estou falando das pequenas coisas.
Daquelas que talvez ninguém perceba. Aquelas que são ordinárias.
De uma música que você ouve cinquenta vezes porque, por algum motivo, ela parece dizer exatamente aquilo que você não conseguiu dizer.
De um livro que você leu há dez anos e ainda lembra de uma frase.
De um personagem fictício que, estranhamente, parece entender você melhor do que algumas pessoas de verdade.
De uma palavra que você acha bonita.
De uma história que você não consegue parar de pesquisar mais e mais sobre.
De uma pergunta que fica na sua cabeça durante dias.
De um assunto que você começa a estudar “só por curiosidade” e, quando percebe, já está às três da manhã lendo sobre ele.

Eu faço muito isso. Na verdade, talvez eu faça isso demais. Eu tenho uma curiosidade meio inconveniente. Se alguma coisa desperta meu interesse, eu quero saber mais. E depois mais um pouco. E, quando acho que já entendi, aparece outra pergunta.

E outra.

E outra.

Até porque, por causa do TDAH, meu cérebro tem apenas dois modos de funcionamento: completamente desinteressado ou absurdamente obcecado. E, quando me interesso por algo, eu compro livros, faço pesquisas, reviro o Google, pergunto para quem sabe, faço até curso. Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido me contentar muito bem com respostas prontas. Eu gosto de entender o que existe por trás das coisas.

Por que as pessoas fazem o que fazem.
Por que certas histórias nos emocionam tanto.
Por que alguns personagens permanecem conosco durante anos.
Por que determinadas músicas parecem saber exatamente onde tocar.
Por que alguns símbolos aparecem repetidamente na nossa vida.
Por que uma determinada ideia fica martelando na nossa cabeça enquanto tantas outras simplesmente passam.

Meu cérebro e meu espírito ficam em paz quando tenho respostas — sobre qualquer coisa. Talvez seja por isso também que eu goste tanto de livros.

Porque livros são pequenas máquinas de fabricar perguntas.

Você começa uma história pensando que vai descobrir quem matou o sujeito, quem vai ficar com quem ou se o herói finalmente vai conseguir destruir o anel (pegaram a referência marota?) — e termina pensando na própria vida.

E isso é maravilhoso.

Às vezes, acho que algumas das coisas que mais amamos dizem muito mais sobre nós do que aquelas características que usamos para nos definir.

Eu poderia dizer que sou professora.
Que amo ler.
Que amo mais ainda os gatos.
Que meu escritor favorito é Tolkien.
Que estudo Tarô, arquétipos, mitologia, italiano, espiritualidade, literatura, inteligência artificial — e eu estudo tudo isso mesmo. Até curso de Técnico em Veterinária eu já fiz para saber como cuidar melhor dos meus gatos. E mais um monte de outras coisas que provavelmente fariam uma pessoa muito objetiva perguntar: “Mas qual é exatamente o seu foco?”

E eu poderia responder.

Mas talvez a resposta mais verdadeira seja outra.
Eu gosto de descobrir.
Talvez essa seja uma das minhas maiores obsessões.

Descobrir.
Entender.
Relacionar coisas que, aparentemente, não têm nenhuma relação, mas que, na minha cabeça, têm.

Uma história com um símbolo.
Uma música com uma memória.
Um personagem com uma parte da minha personalidade.
Uma carta de Tarô com uma pergunta que eu estava tentando formular.
Um livro com uma fase da vida.
Uma conversa com uma ideia que só vai fazer sentido três meses depois, às duas da tarde de uma segunda-feira, quando eu estiver preparando aula para meus alunos. Ou no sábado à noite, enquanto eu estiver jogando Hogwarts Legacy ou Lords of the fallen (Adoro na vida!).

E talvez seja assim que a gente vai construindo quem é.
Não de uma vez.
Não através de uma grande descoberta sobre nós mesmos.
Mas aos poucos.
Com pequenas obsessões.
Com pequenas curiosidades.
Com coisas que nos fazem parar e pensar: “Nossa, eu gosto muito disso.”

E talvez exista alguma coisa profundamente bonita nisso.

Porque, olhando de fora, nossas pequenas obsessões podem parecer completamente aleatórias.

O que gatos têm a ver com Tolkien?
O que Tolkien tem a ver com arquétipos?
O que arquétipos têm a ver com psicologia?
O que psicologia tem a ver com uma música que você ouviu ontem?
Por que essa música te lembrou daquele livro?

Provavelmente tudo.
Ou talvez nada.

Mas eu gosto de acreditar que sempre existe alguma conexão escondida em algum lugar.
E talvez nem seja necessário encontrá-la.
Talvez o mais interessante seja continuar procurando.

No fim das contas, acho que somos um pouco como aquelas estantes cheias de livros em que ninguém sabe exatamente onde está cada coisa.

Tem uma história aqui.
Uma lembrança ali.
Uma obsessão antiga esquecida atrás de outra mais recente.
Um personagem que ainda mora em alguma prateleira.
Uma música guardada entre dois livros.
Uma pergunta que nunca foi respondida.
E, de vez em quando, a gente puxa um desses livros.
Abre.
Lê algumas páginas.
E percebe que aquilo ainda fala com a gente.

Talvez seja isso que significa crescer.

Não deixar de ser quem fomos, mas continuar acrescentando coisas à estante.
Novas histórias.
Novas perguntas.
Novas versões de nós mesmos.
E algumas obsessões completamente inexplicáveis.

Porque, sinceramente?

Eu ainda acho que uma boa parte da vida consiste justamente em descobrir por que diabos aquela coisa aparentemente insignificante conseguiu despertar tanto a nossa atenção. E, quando descobrimos...

Bom.

Aí provavelmente surge outra pergunta.

E começa tudo de novo.



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E é claro que eu perguntei ao Tarô se havia uma carta para este post. E havia!



O Julgamento — Arcano XX

O Julgamento é a carta do despertar, do chamado e do renascimento. Ela representa aquele momento em que algo nos faz acordar para uma verdade sobre nós mesmos e olhar para nossa história com mais consciência. É uma carta de reconhecimento e transformação: compreender o passado, integrar o que vivemos e seguir adiante a partir de uma nova consciência.

Em essência, esta carta fala de despertar, chamado, consciência, renascimento, reconhecimento, perdão e transformação.

No fundo, O Julgamento pergunta: “O que está tentando despertar em você?”

Acho que foi justamente por isso que o Tarô me deu essa carta quando perguntei se havia alguma que se conectava ao meu texto. 

Quando uma música insiste em voltar, quando um livro permanece na nossa memória durante anos, quando um personagem parece dizer alguma coisa sobre nós ou quando uma simples curiosidade nos leva a pesquisar, estudar, fazer cursos e querer saber cada vez mais, talvez essas coisas não sejam tão aleatórias quanto parecem.

Não significa necessariamente que exista um destino escondido por trás de cada interesse. Às vezes, algumas coisas simplesmente se conectam com o que há dentro de nós, e isso aparece muito no meu texto: gatos, Tolkien, Tarô, mitologia, idiomas, literatura, inteligência artificial, ensino, videogames... Separados, parecem interesses completamente diferentes. Juntos, começam a formar um retrato. O meu.

E é aí que O Julgamento aparece: olhar para todas essas partes e reconhecer que elas também contam a nossa história.

Não quer dizer que sejamos pessoas sem foco, mas, sim, pessoas feitas de conexões.

Pode ser que nossas pequenas obsessões sejam justamente os chamados que ainda não aprendemos a reconhecer e estejam ali justamente porque alguma parte de nós quer ser ouvida.

Porque, no fim, como eu disse no fim do meu devaneio, quando encontramos uma resposta, surge outra pergunta. E começa tudo de novo.

A trombeta toca. A gente escuta. E segue para descobrir o que vem depois.
 

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1 comments:

Fernanda Rocha disse...

Eu geminiana com TDAH também sou muito assim. Ás vezes acho que tantos interesses atrapalham a vida, mas quando me imagino sem esse cérebro caótico, penso que minha vida seria tão sem graça, hehehehe. Esse é nosso diferencial, então vamos procurar usá-lo da melhor maneira e ser feliz!